Entrevista – Luiz Carlos Merten


22/10/2008


Crítico com alma de repórter


Francisco Ucha e Marcos Stefano, de São Paulo*
22/10/2008

Na semana da estréia nos cinemas, a superprodução “Speed Racer” já era bombardeada por críticas de todos os lados, inclusive de muitos fãs da clássica animação japonesa. Enquanto uns torciam o nariz para a mais nova aventura dos irmãos Andy e Larry Wachowski, Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do jornal O Estado de S.Paulo, surpreendia leitores e colegas tecendo rasgados elogios ao filme, indo mais uma vez contra a corrente de toda a crítica cinematográfica. “Saí do cinema com a cabeça a mil” —, escreveria depois em seu blog.

Polêmicas à parte, Merten é de fato um crítico diferenciado e com justiça apontado como um dos que mais entendem de cinema no Brasil. Aos 62 anos, esse gaúcho encontrou sua vocação enquanto estudava Arquitetura em Porto Alegre. Era o início da ditadura militar nos anos 60 e ele aceitou o desafio de escrever sobre cinema no mural da faculdade. A idéia deu tão certo que Merten não apenas decidiu se aventurar na área, passando a escrever em jornais num tempo de dura censura, como também mudou o curso e passou a estudar Jornalismo. Em quatro décadas de carreira, ele já trabalhou em jornais e no rádio, passando pelas editorias de Esportes e Mundo. Mas o que realmente o encanta é a chamada Sétima Arte.

Ainda assim, quando fala de cinema, ele não é o tipo clássico de crítico, que prefere trabalhar isolado para preservar independência e distanciamento. “Antes de mais nada sou um repórter. E para fazer meu trabalho, faço entrevistas, visito sets de filmagem e acompanho filmes desde sua gênese”, confidencia Merten. Hoje, morando em São Paulo com a filha Lúcia e trabalhando no Estadão, ele mostra todo o seu amor pelos filmes autorais, o chamado cinema-arte, e não se mostra partidário da indústria cultural. Entretanto, acredita que a crítica na imprensa brasileira precisa mudar seus rumos. “Os tempos mudaram. Precisamos entender o valor universal do cinema e aprender a fazer links entre Gláuber Rocha e Indiana Jones”.

                                            “Speed Racer”

Jornal da ABI — É possível ser tão eclético a ponto de gostar de filmes cultuados e blockbusters? Seus textos sempre rendem acirrados debates por conta de seus elogios a produções como “Homem-Aranha” e “Speed Racer”… 
Luiz Carlos Merten — Ninguém entende como eu consigo gostar do Bresson, do Sokurov e do Indiana Jones. Mas eu decodifico essas coisas de um jeito que se adaptam. Sempre lembro do Gláuber Rocha, que quando tinha nove ou dez anos leu “Zaratustra”. Por mais genial que fosse, claro, não entendeu nada. Mas aí deu no que deu. Eu, aos nove anos, estava lendo ficção, contos, historinhas. Adorava o Tarzan, histórias de mistério, suspense, Edgar Alan Poe. Progressivamente, fui descobrindo os clássicos. No Brasil, li José de Alencar antes de Machado de Assis. Anos mais tarde voltei para romances como “Senhora” e pude compreender a análise social do Segundo Império. Depois, passei aos estrangeiros e à cultura erudita clássica. Mas nunca reneguei o passado. Eu tenho uma necessidade de me esbaldar no cinema. Se tu fores assistir a um filme de luta comigo, não vais acreditar. Não consigo ficar quietinho na cadeira, pulo, vibro demais. Essa agitação é meu exercício físico. Privilegio o cinema de autor, as pequenas produções, mas sou capaz de defender a trilogia “O Senhor dos Anéis” com convicção, pois penso que ali existe um grande projeto autoral, de um diretor inicialmente desconhecido da Nova Zelândia que usa a máquina de Hollywood para expressar um imaginário riquíssimo. Adorei também a saga de “O Homem-Aranha” porque além de tantos efeitos, iluminação, humor, violência, há um recorte, uma reflexão sobre família que é coisa de louco. Quando vi pela primeira vez o trailer de “Speed Racer”, achei que, como “Matrix”, de qual não gostei tanto, seria jogo duro. Mas assisti ao filme e ele me surpreendeu. A minha crítica ficou tão entusiasmada que, na hora de fazer a cotação (dar a nota ao filme) — algo de que não gosto por ser reducionista, mas que tenho que aceitar por se tratar da política do jornal —, perguntaram-me e eu disse que “Speed Racer” não poderia ser apenas “bom”. Era ótimo.

 Na redação

Jornal da ABI — Mas a grande maioria da crítica considerou Speed Racer um show de pirotecnia sem profundidade nenhuma. O que o levou a pensar diferente?
Merten — Realmente, existe ali toda parafernália de efeito, som, extravagância. Mas também um recorte bem intimista. Naquele mês, fui ver “Dois destinos”, um filme de 1962 do Valério Zurini, com Marcello Mastroianni e Jacques Terran, no Espaço Unibanco. Obra que também tem um trabalho de cor e produção apuradas para a época em que foi feito e analisa com rigor as relações familiares, o universo do sentimento. Quando vi o “Speed Racer”, um pensamento me caiu como um raio: “Dois destinos da parafernália”. É nesses momentos que a informação conta, seja ela vinda do repórter, seja da formação da pessoa. Fiquei impressionado ao descobrir que, assim como o Peter Jackson (diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis”), os irmãos Wachowski foram dois caras de muito peito e nunca fizeram o jogo de Hollywood. Fiquei espantado quando soube que um deles trocou de sexo. A história dos dois irmãos me soou estranhíssima. Parecia coisa de filme de (David) Cronenberg: “Gêmeos — Mórbida semelhança”. Caiu a minha ficha. Eles fizeram um filme que se identifica com eles, foram buscar uma história que falasse deles. Quando comentei com alguns amigos, eles disseram: “Tu estás louco!” Não, não estou, está lá, retratado na família e nas complicadas relações entre o Corredor X e o herói do filme. Quando abri minha matéria, falei que o cinema já fez muitas adaptações de animações, pegando os desenhos e transformando em personagens de carne e osso. Mas agora estamos vendo o movimento oposto. Estão pegando atores de carne e osso e jogando na animação. Mas além disso existem as complexas relações familiares e não apenas a luta contra as grandes corporações. É esse tipo de coisa que encanta no cinema e que precisa ser redescoberta. Se achasse que essa riqueza existe só em meia dúzia de diretores que admiro para que perder tempo com todo o resto?

Jornal da ABI — Nesse caso, você acha que o crítico, em geral, é preconceituoso?
Merten — Infelizmente, há muito disso no nosso meio. Recentemente fui entrevistar o diretor Carlos Reichenbach e terminamos em um autêntico bate-papo de cinéfilos. Não gostei dos últimos filmes dele, mas adorei o último, “A falsa loira”. É perfeitamente possível apreciar o kitsch e a cultura erudita clássica. Adoro a trilogia do Antonioni dos anos 60, os grandes filmes de Visconti, a nouvelle vague. Os diretores italianos como o Riccardo Freda e o Vittorio Corttafavi, que fez “Hércules na conquista da Atlântida”, um desses filmes raros, brechtianos. Mas sempre fui aberto para outras produções. Não era preconceituoso antes e não vou ficar agora, depois de velho. Esse purismo não faz sentido. Tive um editor, apreciador de Bresson, o Evaldo Mocarzel, que se tornou cineasta e que foi a Cannes e odiou o “Moulin Rouge”, com a Nicole Kidman. Já eu consegui fazer uma leitura do filme, que reinventa “Rocco e seus irmãos”, de Visconti. Comecei a crítica justamente falando sobre o Bresson. Evaldo leu e disse: “Tu fazes isso para me provocar. Mude aí.” Claro que não aceitei e disse que, se não fosse assim, não faria. Isso é para mostrar que é possível fazer um link entre o que é considerado arte e o popular, e que só na cabeça de meia dúzia são setorizados. Em grandes produções há a mistura entre o joio e o trigo. Mas esse negócio de grande cultura e baixa cultura que existia antigamente hoje mudou; a realidade é mais complexa. Se o filme tivesse uma única forma de ser visto, ele vinha com uma bula, um modo de usar, uma receita. O que fascina é justamente a possibilidade de o espectador ser um tipo de co-criador, pois quando é exibido o filme já não pertence mais a quem o fez. Quem assiste é que dará o sentido final. O que lamento é o público ser tão induzido — e não só no cinema — a um consumismo puro. Como consumimos mercadorias, espera-se que você vá ao cinema para ver um filme atrás do outro, sem ter tempo para pensar. Meu papel, como crítico, é levar quem vai ao cinema, com sua pipoca e refrigerante, a ver o filme como algo mais do que divertimento.

Jornal da ABI — Aproveitando a máxima da ex-Ministra do Turismo, a crítica especializada poderia, então, relaxar e gozar quando fosse ao cinema a trabalho?
Merten — Eu não tenho dúvidas. No ano passado, quiseram fazer no jornal uma matéria sobre o melhor filme do ano. Quase caíram de costas quando eu disse que falaria sobre “Ratatouille”. “O quê, uma animação?”, questionaram. Mesmo assim, fiz. Acho que o dia em que deixar de pensar assim, com toda a liberdade, meu trabalho vai perder a graça.

 Merten na XIII Bienal do Livro de 2007

Jornal da ABI — O que é a boa crítica de cinema?
Hoje, o principal problema é a crítica burocrática. No Caderno 2, temos um oásis em relação a isso, já que na maior parte da imprensa os textos são curtinhos, meras resenhas e não análises de fundo. Outra coisa que atrapalha muito é a cultura dos blogueiros, da internet, que é baseada na polêmica fácil apenas para chamar a atenção. Essa superficialidade toda é a marca do nosso tempo. Até por isso, creio que exista uma reação tão forte dos jornalistas mais tarimbados na área contra as grandes produções e numa defesa intransigente do cinema-arte. Queiramos ou não, fazemos parte da indústria cultural. Tu podes ser um bom soldado e ajudá-la a se expandir cada vez mais ou tu podes convidar as pessoas a pensar contigo, que é o que tento fazer. Não creio que mesmo um “Sol”, do Alexandr Sokurov, esteja liberto dos tentáculos da indústria cultural. Quando assisti Spielberg com “ET” e “Contatos imediatos de terceiro grau”, gostei muito. Mas depois, como muitos, comecei a pensar que era um diretor que transforma o cinema em brinquedo de criança, abusando de efeitos especiais. Até há uns quatro anos, quando assisti a “O terminal”. Eu tive um choque. Logo em seguida vieram “Guerra dos mundos” e “Munique”. Mesmo não dizendo uma palavra sobre o 11 de Setembro, ficou claro como faziam um retrato dos Estados Unidos de George W. Bush e da vida norte-americana. Não é um Michael Moore trantando o assunto na base da força, mas o Spielberg mostrando a genialidade da sutileza.

Jornal da ABI — Como nasceu sua paixão pelo cinema?
Merten — É até difícil dizer exatamente quando foi. Certa vez, o Rubinho (Rubens Ewald Filho) disse que guarda cadernos nos quais anota todos os filmes que vê. Acho engraçado a pessoa ser capaz de dizer o exato número de produções que assistiu: 50.531, por exemplo. Sou absolutamente incapaz desse tipo de coisa. Quando era criança em Porto Alegre, morava em um bairro no qual havia três cinemas. Sempre gostei muito e corria de um para outro. Mas acho que o envolvimento maior surgiu mais tarde. Depois que terminei a escola, fui cursar Arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Não cheguei a concluir o curso, mas foi uma etapa muito importante de minha vida. Eram os primeiros anos da ditadura militar, meados dos anos 60, e o pessoal criou na faculdade um mural de livre expressão. Aí eu comecei a escrever sobre cinema, alguns filmes de que gostava, e houve certa repercussão. Comecei a gostar daquilo, pois já não via os filmes apenas como passatempo, mas de forma mais sistemática e profunda. Em 1967, fui até o Diário de Notícias. Não conhecia ninguém, mas entrei na Redação e perguntei quem era o encarregado. Não sabia nem que o nome é “editor” e também nada sobre as demais funções. Foi aí que me indicaram o Celito De Grandi e eu lhe disse que queria fazer crítica de cinema. Era uma verdadeira maluquice, mesmo naquela época, mas eu tinha encontrado um maluco maior do que eu, que me propôs: “Vamos ver o que tu podes fazer.” Minha primeira coluna foi sobre os destaques de 1966 e deu tão certo, que passei a colaborar semanalmente. Mesmo que ganhasse pouco, logo descobri que aquilo poderia ser também meu ganha-pão. Colaborei ali por dois anos.

Merten entrevista Carlos Adriano, Carla Gallo, Cesar Cabral, Patricia Cornils e Paschoal Samora

Jornal da ABI — Pelo que você descreveu, para um jornalista começar na profissão antigamente era muito mais fácil do que agora…
Merten — Sem dúvida. Você entrava na Redação sem nenhum empecilho. Também não se falava muito em grana, mas eram os tempos heróicos do jornalismo. A gente tinha que datilografar, trabalhar com laudas e não podia mudar o texto com a facilidade de hoje. Com isso, aprendi a escrever muito rápido e em laudas limpas, sem rasura, mesmo com meu defeito nas mãos. Nem tanto quando escrevia sobre cinema, mas ao cobrir esportes. Por ser uma editoria muito rápida e dinâmica, tu tens que usar a velha fórmula de estrutura da matéria, com lide e pirâmide invertida. Isso engessa o texto algumas vezes, mas a mim deu segurança e rapidez de raciocínio. Quando começaram a informatizar a redação, tive uma certa dificuldade em aceitar que poderia mexer tanto no texto depois de escrito.

Jornal da ABI — Como foi sua experiência no rádio?
Merten — Na Rádio Gaúcha, do grupo RBS, trabalhei na produção de um programa feminino. Era o começo dos anos 80 e o professor Rui Carlos Ostermann era o Diretor de Conteúdo. Ele dirigiu diversas Redações e foi quem me introduziu mais a fundo no mundo do cinema ao me dar meu primeiro emprego em um núcleo audiovisual do Colégio Israelita Brasileiro. Quando ele chamou a mim e a apresentadora Tânia Carvalho, queria fazer algo diferente, que não se limitasse a receitas culinárias, dicas sobre filhos, beleza e variedade. A idéia era produzir um conteúdo mais abrangente e topei. Logo chamamos uma advogada para dar consultoria jurídica. Mas o que fez sucesso mesmo foram as assistências de uma sexóloga, a Maria Aparecida Vieira Souto. Em tempos de censura e tabus, ela começou a falar abertamente sobre sexo no rádio. E olhe que isso foi antes de a Marta Suplicy aparecer (na TV Mulher, programa da Rede Globo). Às vezes, eu ficava dando corda para aquelas mulheres e elas aproveitavam. Logo, o professor Ostermann chegava esbaforido: “O que vocês estão fazendo?” No começo, as perguntas eram bem tímidas, mas depois iam avançando. Seis meses depois de começarmos, uma ouvinte perguntou sobre sexo oral e a Maria Aparecida respondeu tudo. Até hoje não sei como não tiraram a rádio do ar. Claro, alguns reclamavam, pois achavam aquilo muito avançado, até indecente, mas tinha gente que adorava. Nunca fui vinculado a nenhum partido nem participei de movimentos clandestinos, mas, dentro de minhas limitações, sempre acabei afrontando o regime.

 Merten integrou o juri do Festival de Cinema de Cannes em 2006

Jornal da ABI — Falando nisso, como um crítico de cinema tinha acesso aos filmes proibidos pela ditadura militar?
Merten — No começo dos anos 70, a censura era muito rígida e diversos filmes foram proibidos, especialmente aqueles que ganhariam uma aura mítica tempos depois: “O último tango em Paris”, “Laranja mecânica”, “Estado de sítio”, “Decameron”. Mas várias dessas produções eram exibidas na Argentina e no Uruguai, porque esses países ou tinham uma cultura cinematográfica mais avançada ou seu processo ditatorial se intercalava com as várias tentativas de redemocratização. Então, eu pegava um ônibus à noite em Porto Alegre e acordava de manhã em Montevidéu. Via os filmes no final de semana e depois voltava. Certa vez assisti a “Estado de sítio” e quando voltei escrevi um texto no qual descrevia a cena em que o personagem Dan Mitrione, de Luis Montam, ensina os militares brasileiros a torturar. Esse tipo de coisa não saía em qualquer outro lugar. Não sei se foi porque era variedade e para os censores variedade era apenas frescura. Mas aqui no Estadão tantas vezes eles precisaram colocar receitas culinárias no lugar das matérias. Na Folha da Manhã, conseguimos passar por cima disso tudo.

Jornal da ABI — Foi também por causa disso que você se tornou militante do movimento sindical?
Merten — Para ser sincero, não. Quando fui trabalhar com esportes na Zero Hora, entrei para uma equipe que, como eu, não entendia muito do assunto. Torço pelo Internacional e pelo Corinthians, mas nunca fui de ir a jogos. Só que comecei a achar todos desmotivados, fazendo as coisas “nas coxas”. Um dia surtei. Falei com o editor Antônio Oliveira e fizemos uma reunião para ver o que cada um precisava e para motivar a equipe. O resultado foi excelente e formamos uma das melhores equipes do jornalismo esportivo da época. Acho que foi isso que fez o Antônio — que era sindicalista e depois chegou a ser Presidente do Sindicato dos Jornalistas em Porto Alegre — a pensar que eu levava jeito para a coisa. Assim, tornei-me o homem do sindicato na redação, com a responsabilidade de fazer os comunicados. Parávamos a redação do Zero Hora para fazer discursos. Adorava tanto isso, que cheguei até a me candidatar a Presidente do Sindicato depois que o Antônio saiu, mas perdi. Quando cheguei em São Paulo, não encontrei um grupo tão aguerrido como o de lá no final dos anos 70, começo dos 80, e me desmotivei. Por aqui, acabei me integrando à Associação Paulista dos Críticos de Arte, a qual presidi por três mandatos. 

Jornal da ABI — Você é crítico de arte, mas adora reportagem. Conciliar as duas coisas pode ser uma boa receita para se ter boa crítica?
Merten — Posso ser chamado de crítico, mas meu cargo no jornal continua sendo de repórter. Quando comecei no Estadão, fazia a seção de filmes na televisão. Só que não me contentei só com isso. Passei a fazer pequenas matérias sobre esses filmes, que foram crescendo. Em meu trabalho, gosto de ser repórter, fazer entrevistas, visitar os sets de filmagem. Já alguns colegas preferem seguir o modelo estrito de crítica, trabalhando isolado para não prejudicar a independência e o distanciamento. É uma questão de opção pelo modelo que melhor funcione com a pessoa. Gosto do corpo-a-corpo e acho que isso ajuda a enriquecer meu material, trazer mais informações. Não topo ficar na minha, ditando regras. Prefiro acompanhar o processo. Há pouco mais de uma década, no começo da Lei do Audiovisual, tínhamos uma seção chamada “Cultura e patrocínio”, na qual fazíamos matérias para dar visibilidade para os projetos. Acompanhava tudo desde a gênese da idéia, dava forças, mas no final podia sair matando se o resultado não fosse adequado. Mesmo criticando ou contestando esteticamente vários filmes, sempre fiz questão de manter um canal aberto com o cinema brasileiro como um todo e não criar obstáculos para que diretores produzam novos trabalhos. Não conheço ninguém, bom caráter e honesto, que faça algo ruim por que quisesse. É uma conjunção de fatores que leva a isso e ainda há gente que faz coisas horrorosas na crença de produziu uma maravilha.

Jornal da ABI — Qual a sua opinião sobre a crítica de cinema hoje?
Merten — Pode parecer estranho, mas não acompanho o que os outros escrevem. Sou muito reticente a isso. Meu trabalho me ocupa demais e tenho tendência a aproveitar tudo. Tem gente que fica falando que ninguém liga para crítica de filmes de televisão, mas eu adoro. E utilizo até isso. Já tive chefes que me criticaram por “perder tempo” escrevendo a sessão de filmes na tv, enquanto poderia estar fazendo a capa do caderno. Como não mantenho um bloquinho de anotações, um banco de dados sobre filmes a respeito dos quais escrevi, reescrevo sobre muitos deles. A tendência quando tu escreves assim é acrescentar algum elemento de atualização e falar sobre elementos ao redor. Não acompanho outros críticos porque a tendência é ficar apenas contestando ou eventualmente apoiando, polemizando. Se me preocupasse com isso, perderia minha originalidade. Não que ignore tudo que é feito. Mas até no caso da televisão faço questão de alertar o leitor: “Não ligue para o que diz a crítica, o filme é bom.” “Como tu consegues fazer esse contra-senso, contra tua própria corporação?”, perguntam. Naturalmente, pois não se trata de minha corporação, mas de crítica plural, rica e interessante.

 Edmundo Desnoes e Merten

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Jornal da ABI — Fica claro que você gosta muito de escrever. Parece que não pára um minuto…
Merten — Acho que é para satisfazer essa voracidade que me deram o blog no site do Estadão (risos). Na verdade, apesar de a fama ter chegado só aqui em São Paulo, esse é meu jeito desde que comecei. No princípio dos anos 70, fui para a Caldas Júnior, na época, a maior empresa jornalística do Rio Grande do Sul. Na Folha da Manhã fazia crítica de cinema e logo ganhei uma página diária. Mas não fiquei apenas nessa área. Depois de um episódio em 1976, no qual todos pedimos demissão coletiva, fui trabalhar no rádio, na RBS, e depois na Zero Hora. Mas como não havia caderno para cinema, trabalhei nas editorias de Esporte e Mundo. Voltei à área só em 1984, quando a Gazeta Mercantil criou um suplemento regional. Quando foi criado o Diário do Sul, fui para lá. Mas o jornal não viveu muito e no final de 1988, quando fechou as portas, percebi que não teria muita perspectiva na minha área em Porto Alegre. Tinha sido líder sindical e, com isso, fechado muitas portas. Outras, como na Zero Hora, estavam abertas, mas se voltasse, teria de fazer outra coisa. Foi aí que decidi vir para São Paulo. Tive uma rápida passagem pela revista Imprensa e entrei no Estadão a princípio para cobrir férias. Mas ainda bem que minha fama foi a da voracidade. Temia que se tornasse outra, porque lá no Sul, onde eu passava, o veículo fechava. Foi assim no Diário de Notícias, no suplemento da Gazeta, no Diário do Sul. Cheguei a pensar: “Meu Deus do Céu, sou o maior enterrador de jornais.” Quando cheguei no Estadão, tinha apenas um pensamento: “Este, eu não vou enterrar.” Ufa, e ainda bem que não enterrei. Pelo contrário, sempre me senti muito bem aqui. É verdade que eu gostava de ocupar espaço, mas também sinto reciprocidade. As pessoas confiam no meu trabalho, apóiam e me permitem fazer isso.

Jornal da ABI — Você participou há pouco do Festival de Cinema de Pernambuco e fez duras críticas aos longas e elogios aos curtas. Como anda o cinema nacional em sua opinião?
Merten — Algumas pessoas disseram que o festival deste ano refletia a fraqueza do momento atual do cinema brasileiro. Discordo inteiramente. O que acontece é que devido à data desse festival todas as grandes produções, com mais qualidade estética, brigam por uma vaga em Cannes e é preciso preservar o ineditismo. Como falar que o momento atual do cinema brasileiro é insatisfatório se ganhamos um Urso de Ouro em Berlim com “Tropa de elite” e tivemos três filmes no Festival de Cinema de Cannes** este ano? Existem coisas fascinantes que estou louco para ver, como o filme do Belmonte e a “Cleópatra”, do Bressane, premiados no Festival de Brasília do ano passado. O que acontece é que no circuito nacional o cinema brasileiro é estrangeiro, mesmo sendo o dono da casa. 

Jornal da ABI — Mesmo assim os curtas o surpreenderam… 

Merten — A seleção de curtas estava muito boa mesmo. Mesmo aquilo de que não gostei tinha alguma contribuição para dar, elaborando o discurso do cinema brasileiro atual. Se não pensarmos em termos de suportes, de tempo, de formato, se é longa, curta, digital, película, ficção ou documentário, o melhor filme que vi foi um curta de oito minutos feito em digital, que veio da Paraíba, chamado “O guardador”. Por isso, defendi que o prêmio de melhor filme fosse dado ao curta. Continuo achando que os filmes feitos em película possuem uma qualidade estética visual muito mais apurada do que permite a tecnologia digital. Ainda que exista uma democratização maior, também vem muita porcaria. Mas também temos de pensar nas coisas boas e tornar as fronteiras mais flexíveis. Na verdade, será que a duração é tão fundamental assim? “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, tem apenas uns 17 ou 18 minutos, é um dos maiores filmes do cinema brasileiro.

Jornal da ABI — Ultimamente anda havendo um boom de documentários e cinebiografias. Como você analisa essa tendência?
Merten — Há uma busca dos diretores e do público pelas imagens verdadeiras, documentais. Efeito também desse negócio de era da imagem e da busca pelos 15 minutos de fama. Mas o crescimento é bom e acontece não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos e Europa. Hoje temos grandes festivais do gênero até aqui em São Paulo, que atraem grandes públicos. Mas é também verdade que os grandes documentaristas nos dizem para ficar atentos com essa tendência. De qualquer forma, a influência é notável. O fenômeno do ano passado, “Tropa de elite”, do José Padilha, é um filme de grande riqueza para refletir o País. Influência do atual momento. Mas os dois melhores filmes do ano passado foram documentários: “Jogo de cena”, do Eduardo Coutinho, e “Santiago”, de João Moreira Salles. Ambos percorrem o limite entre a ficção e a realidade, mostrando que o documentário é a ficção que as pessoas fazem de si mesmas. Todo mundo cria um personagem de si quando fica diante das câmeras. Também o documentarista assume que é um manipulador, que faz ficção ao abordar um aspecto apenas da realidade. Isso também é de uma riqueza fantástica.

Jornal da ABI — Como está sendo fazer um dos blogs de maior sucesso na sua área para alguém que até bem pouco tempo detestava computadores?
Merten — Estou viciado. O dia em que não posto pelo menos uns cinco ou seis textos, fico muito mal. É um texto mais caudaloso, pessoal. Meu editor chega a dizer que o blog está influenciando demais aquilo que escrevo, já que é produzido na primeira pessoa e você precisa se expor. Claro que no jornal não escrevo em primeira pessoa, mas é preciso manter o foco na informação. Sou prova da influência dos blogs no jornalismo. Por outro lado, brinco que meu blog vai entrar para a história porque me recuso a colocar imagens lá. A proposta é justamente essa, discutir cinema, trocar idéias. Se quisesse imagens, estaria fazendo cinema em vez de discutir sobre ele. Só preciso praticar um pouco mais, pois, na hora de postar, acabo perdendo alguns textos… Muitos leitores e colegas gozam da minha cara por causa disso. É uma agitação, mas acho que morreria sem ela.

Jornal da ABI — O que você acha do trabalho das assessorias de imprensa da área de cinema?
Merten — Fui fazer uma entrevista com um pessoal há alguns dias e a assessora que estava junto me encostou na parede e soltou a metralhadora no final: “Vai ser capa? Tu gostastes? Qual cotação tu vais dar?” A pressão que eles fazem é absurda. Eles precisam entender que a parte deles é promover a reunião e esperar o dia seguinte, quando saberão o resultado. Isso é o resultado da competição. Cabe ao jornalista estabelecer limites. Quem me convida deve saber que serei isento. Uma vez, a Sony me convidou para uma junket do filme “Memórias de uma gueixa”. Fui a Nova York, entrevistei a equipe toda. Mas no dia em que o filme estreou no Brasil estava havendo uma sessão especial do diretor Kenji Mizoguchi em São Paulo. Não tive dúvidas e escrevi: “Se você quiser conhecer o universo das gueixas, esqueça o “Memórias” e vá assistir Mizogushi, que produziu sua obra há 50 anos, mas é o diretor que melhor trabalha a mulher na cultura japonesa.” Outro dia, topei com a assessora da Sony. “E aí, como foi a estréia”. Ela respondeu, braba: “Está preocupado por quê? O outro não era melhor?” E eu: “Bom, que era, era…” Sigo sempre a minha teoria e não escrevo o que não quero. No fim, é a mesma lição de “Matrix”: cabe ao jornalista resistir.

Jornal da ABI — Que dica você dá para o bom jornalista que quer se aventurar pela área?
Merten — Todos os anos, dou uma palestra no curso do Estadão para os focas. Eu brinco e digo que eles já podem ir se preparando, porque a primeira coisa que o foca faz no Caderno 2 são as Breves. Pois eu luto pelas Breves, assim como luto por matéria e por capa. Não faz diferença. O dia em que eu morrer vai abrir emprego para todo mundo… (risos). Mas é preciso se dedicar e valorizar até os pequenos espaços. Como disse, não escrevo o que não quero, mas sou obrigado a escrever sobre filmes de que não gosto. Mas não faço jogo duplo. Ética é fundamental. Ultimamente, muitos jornalistas têm sido chamados para fazer pressbooks. É uma maneira de evitar a mesmice, mas acho que quem trabalha em redação não deve ir por esse caminho. E quem lida com isso deve saber que sua função é dar ferramentas. Quem cria é apenas o cineasta.

* ** Esta entrevista foi publicada originalmente na edição 331 do Jornal da ABI 
(páginas 24 a 27) e realizada antes de Sandra Corveloni ganhar 
o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Cannes, por sua 
atuação no filme “Linha de passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas

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