Entidades internacionais condenam a morte de Santiago Andrade


Por Igor Waltz*

12/02/2014


A morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, atingido por um rojão enquanto cobria um protesto contra o aumento das passagens de ônibus no Rio na quinta-feira, 6 de fevereiro, repercutiu na imprensa estrangeira e chamou a atenção de entidades internacionais. A Associação Mundial de Jornais e o Fórum Mundial de Editores enviaram carta à presidente Dilma Rousseff, nesta terça-feira, 11, manifestando sua indignação com a morte do profissional.

Na carta, as duas entidades lamentam profundamente a morte do cinegrafista, manifestam sua expectativa de que os responsáveis sejam levados rapidamente à justiça e requisitam que o trabalho dos jornalistas seja exercido com segurança no Brasil. A Associação e o Fórum representam 18 mil publicações, 15 mil sites e mais de 3 mil empresas em mais de 100 países.

A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) também pediu nesta terça-feira às autoridades brasileiras garantam a segurança dos jornalistas que cobrem manifestações públicas. A IFJ disse que é mais do que necessário que o Brasil realize uma investigação cuidadosa sobre o ocorrido, ao tempo que apelou às autoridades a melhorar as condições de segurança para os profissionais dos veículos de comunicação.

‘Expressamos nossa profunda tristeza e solidariedade com nossos colegas no Brasil, depois das notícias sobre Santiago Ilídio Andrade’, afirmou o presidente da IFJ, Jim Boumelha, que urgiu às autoridades a investigar o incidente e a levar os responsáveis perante a Justiça.

A Organização das Nações Unidas também condenou a morte do cinegrafista Santiago Andrade e afirmou estar “preocupada com a violência” dos protestos sociais no Brasil. Em comunicado, o representante para América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Amerigo Incalcaterra, alertou que nos últimos dias os protestos deixaram “pelo menos um morto, várias pessoas feridas e centenas de detentos”.

A ONG Repórteres Sem Fronteira (RSF) emitiu um comunicado lamentando a “triste constatação dos ataques frequentes contra jornalistas nos protestos no Brasil”. Para a instituição, a dura repressão policial que ocorreu no Brasil em 2013 também atingiu os profissionais da informação. “A primavera brasileira provoca um forte questionamento em relação ao modelo midiático dominante e coloca em evidência os sinistros hábitos mantidos pela polícia militar desde a ditadura”, afirma o relatório.

A ONU apelou “às pessoas e grupos que se manifestam a não utilizar a violência, para que todas as partes possam estabelecer um diálogo construtivo e sustentável”. “A violência, de maneira nenhuma, é o meio para reivindicar direitos”, ressaltou Incalcaterra.

Mas a Organização também “mostrou preocupação pelas alegações de uso excessivo da força e de detenções arbitrárias de manifestantes e jornalistas por parte das forças policiais”. Segundo a entidade, o “Estado brasileiro tem o dever de assegurar que suas forças policiais e de ordem respeitem em todo momento e circunstância os princípios de necessidade e proporcionalidade no uso da força, conforme os tratados e padrões internacionais de direitos humanos”.

Incalcaterra lembrou que “embora o Estado brasileiro tenha a responsabilidade de garantir a segurança pública através de um marco legislativo adequado – ainda em eventos como a Copa do Mundo da Fifa – isso não deve impedir nem dissuadir o exercício legítimo do direito a se manifestar e protestar”.

Imprensa internacional

Veículos da Europa e Estados Unidos levantaram preocupações a respeito da segurança durante a Copa do Mundo deste ano, em junho. O Washington Post destacou que o evento esportivo pode incentivar mais protestos, uma vez que os manifestantes prometem usar o Mundial para expor as reivindicações a todo o planeta. O jornal norte-americano conversou ainda com o editor da TV Bandeirantes Marcos Almeida, que trabalhou com o cinegrafista por seis anos. “Ele era muito cuidadoso e calmo, especialmente quando as situações se tornam complicados”, disse o colega.

O site da rede de TV britânica BBC, que tinha um repórter cobrindo a manifestação na Central do Brasil, relembrou os protestos semelhantes do ano passado, que “se transformaram em um movimento nacional contra a corrupção e o excesso de gastos antes da Copa do Mundo”.

O blog The Lede, do jornal americano The New York Times, reuniu diversas imagens e tweets do protesto, que mostram o momento em que Santiago foi atingido pelo rojão. A agência de notícias AP destaca que vídeos feitos no momento do ataque parecem mostrar que o artefato foi aceso por um manifestante, e não pela polícia.

O jornal espanhol El País afirmou que ao mesmo tempo em que a Presidente Dilma Rousseff pediu rigor nas investigações sobre os responsáveis pela morte de Andrade, entidades de jornalismo reforçavam o pedido por segurança para os profissionais de mídia que cobrem as manifestações.

A correspondente Patrícia Dominguez, do jornal esportivo As, da Espanha, afirmou que o caso foi ruim para a imagem do Brasil. “É muito triste ter que falar dessas coisas, mas isso está relacionado porque é na cidade onde vão acontecer eventos esportivos e uma pessoa que trabalha como a gente. Eu também uso câmera, tenho colegas que vão para os atos e pode acontecer com eles. Por isso, a gente sofre. Quando acontecem mortes das pessoas que trabalham nas obras das arenas, a gente também publica. Qualquer coisa que acontece no Brasil é importante ser conhecido lá – declarou.

* Com informações da rádio CBN, portal Terra, G1, Globoesporte.com, agência EFE, BBC e jornal El País

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