Encontro sobre arte negra empolga na ABI


17/12/2009


Ademir Ferreira, Delcio Teobaldo, Augusto Bapt, Carlos Negreiros e Hermínio B. de Carvalho

Terminou nesta quarta-feira, 16 de dezembro o “Encontro de Arte Negra – Seminário de Estética e Negritude no Brasil Contemporâneo”, uma realização do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), com patrocínio da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (Seppir) e apoio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

O encontro reuniu artistas e intelectuais afrobrasileiros, jornalistas, professores universitários, com o objetivo de traçar um panorama sobre a presença estética do negro na cultura brasileira.
Os principais temas do seminário foram a inserção do negro na mídia, música negra contemporânea, reapropriação e legitimidade das expressões afrobrasileiras

Participaram do seminário os artistas Antônio Pompeo (Presidente do Cidan), Zezé Motta, Ademir Ferreira; o diretor de teledramaturgia da TV Globo, Luiz Antonio Pilar; os cineastas Joel Zito Araújo e Jeferson De.

O encontro reuniu também como palestrantes os poetas Eliza Lucinda e Ele Semog; o compositor Hermínio Belo de Carvalho; o antropólogo e professor da UFF, Julio César Tavares; a escritora Helena Teodoro; e o escritor e historiador Joel Rufino dos Santos.

De acordo com Antonio Pompeo o seminário é a realização de um sonho que levou três anos para se concretizar. O Presidente do Cidan disse que estava satisfeito com o resultado, e que pretende que o evento se transforme em um fórum permanente de debates sobre cinema, teatro e a participação e contribuição dos negros em outras mídias:
— O fundamental para mim com a realização deste seminário foi criarmos a oportunidade de sedimentar os nossos conhecimentos, com a riqueza de informações que tivemos durante estes três dias em que estivemos reunidos aqui no auditório da ABI.

Ruth Pinheiro

Segundo Antônio Pompeo, o encontro foi capaz de responder que a estética negra é uma realidade, pois cada um dos palestrantes apresentou dados sobre a capacidade da população e do artista negros de se manifestarem cultural e artisticamente, por meio de padrões e componentes estéticos reveladores da sua condição étnica.

Ruth Pinheiro, coordenadora do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves, elogiou a iniciativa do Cidan afirmando que a entidade cumpre um papel de extrema importância, preparando jovens para atuar em diversas funções do teatro e do cinema. 

Mundo real 


Muito interessantes foram os aspectos abordados por Hermínio Belo de Carvalho e o músico e pesquisador Carlos Negreiros, durante o painel “Nos e os outros na música negra contemporânea”. Carlos falou sobre a trajetória da bailarina Mercedes Batista, que fez parte do corpo de bailarinas do Theatro Municipal, mas que só fazia papel de escravas, até o dia em que resolveu se transferir para os Estados Unidos.

Carlos Negreiros

Segundo Negreiros, a ida para o exterior proporcionou à Mercedes Batista uma série de experiências, que lhe permitiram alcançar o reconhecimento artístico. Ao retornar ao Brasil, a bailarina iniciou um processo de capacitação para a dança de domésticas, religiosos do candomblé e pessoas de baixa renda:
— Hoje, muitos desses estão na Europa, dando continuidade àquilo que ela plantou.— declarou Carlos Negreiros. — Agora, para poder viver no mundo real e no oficial é importante que o artista passe por uma capacitação embasamento científico, afirmou.

Contou também sobre um caso que previa a participação da orquestra da Rádio MEC num congresso de Nutrição no Hotel Quitandinha, em Petrópolis (RJ). Segundo o pesquisador, ocorreu um problema e os músicos da rádio foram substituídos por uma orquestra de negros, vestidos de terno:
— Chegando lá com objetos de percussão, foram obrigados a entrar pela porta de serviço. Quando a cortina abriu, uma vaia. Ao primeiro acorde, um silêncio total. Mesmo assim, tivemos que comer o macarrão aguado na cozinha.

Hermínio exaltou artistas como Clementina de Jesus, que só tem a obra documentada a partir do ano de 1962. Chamou a atenção para o fato de que outros grandes expoentes da música nacional, como Pixinguinha, Cartola e João do Vale também têm pouca coisa documentada. 

Olhar diferenciado 

Augusto Bapt acha que um dos entraves para um melhor posicionamento da música negra é o olhar diferenciado dos produtores:
— Alguns olham só a venda, outros vêem o conteúdo. Mas ninguém vê a arte como forma de discussão. Há um abismo entre o mercado e o conteúdo.

E citou o caso da banda de jongo Caixa Preta:
— A banda Caixa Preta faz o jongo contemporâneo, é um trabalho para o pensamento de um Brasil contemporâneo.

Para Augusto Bapt, a estética é um todo: corpo e mente. Tem que haver diálogo, “enquanto houver conversa haverá evolução”. Enquanto Delcio Teobaldo disse o seguinte:
— Estética é beleza e conduta. Se é difícil entender a música negra, como vendê-la? O jongo, chamado caxambu em MG, é uma síntese da música negra. Hoje, a música dos negros entra nos espaços, mas o ser humano negro não.

No final, os palestrantes criticaram a TV Brasil por não dar maior espaço à arte negra.

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