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Encontro no centro de SP celebra vida e obra de Elifas Andreato nos seus 80 anos


28/03/2026


Por Fabio Victor, na Folha de São Paulo

Foto: Greg Salibian/Folhapress

Encravada entre os fundos da Câmara Municipal e a passarela do terminal Bandeira, na Bela Vista, região central de São Paulo, a praça Memorial Vladimir Herzog homenageia o jornalista que lhe empresta o nome, assassinado pela ditadura em 1975, e é fruto de uma construção coletiva que revigorou o espaço ao longo dos últimos 14 anos.

Um dos idealizadores desse ponto de encontro foi Elifas Andreato, amigo de Herzog cujas obras estão espalhadas pelo local. Neste domingo (29), nos quatro anos de morte do artista gráfico –que em 22 de janeiro passado completaria 80 anos–, o homenageado será ele próprio.

Como em todo último domingo do mês, as entidades que mantêm a praça –administrada oficialmente pela Câmara Municipal– organizam o encontro Todo Mundo Tem que Falar, Cantar e Comer!, reunindo sobretudo jornalistas, artistas, acadêmicos e estudantes num clima de congraçamento, sarau e festa.

Além das obras permanentes de Elifas espalhadas pelo lugar, trabalhos dele impressos em tecido vão compor a ambientação especialmente para a homenagem. Os filhos do artista, Bento e Laura, estarão presentes.

O pequeno recanto quase escondido na esquina da rua Santo Antônio com a Praça da Bandeira ganhou nova vocação em 2012, quando o então vereador Ítalo Cardoso propôs mudar seu nome, de praça da Divina Providência para praça Vladimir Herzog, e espalhar no local obras de Elifas.

“De sorte que a praça viesse a converter-se num verdadeiro memorial em defesa da liberdade de imprensa”, como escreveu a viúva de Vlado, Clarice Herzog, na apresentação do relatório final da Comissão da Verdade da Câmara Municipal, que recebeu o nome do jornalista.

Dias após a proposta ser endossada pela família de Herzog, Elifas foi ao local com integrantes do Instituto Vladimir Herzog. “Ali mesmo, observando o entorno e riscando o chão com os pés, foi desenhado o que será o memorial”, escreveu Clarice em 2012.

Desde então, quatro obras do artista foram instaladas na praça. No paredão da Câmara, um mosaico de cerâmica reproduz a tela “25 de Outubro” –data do assassinato de Herzog, que retrata a tortura por ele sofrida.

Logo depois da morte do artista, em 2022, os mantenedores da praça deram a ela mais um nome, Centro Cultural a Céu Aberto Elifas Andreato.

“É uma forma de os dois amigos, Vlado e Elifas, se reencontrarem pra sempre. Sua vida, sua obra, sua memória, seus sonhos”, sintetiza Sergio Gomes, o Serjão, fundador da Oboré, referência em jornalismo sindical e comunitário e uma das entidades integrantes do Coletivo Cultural Associação de Amigos da Praça Vladimir Herzog –ao todo são 19, incluindo os institutos Vladimir Herzog e Elifas Andreato.

Ao lado de Elifas e do jornalista Audálio Dantas, Serjão compôs o grupo responsável por liderar a reconfiguração da praça. E atuou para que o local seja hoje certificado como ponto de cultura pelo Ministério da Cultura e como ponto de memória pelo Ibram, o Instituto Brasileiro de Museus.

Também foi Serjão que encabeçou a concretização da única ideia do plano original de Elifas que até pouco tempo ainda não havia saído do papel, um espaço com o nome de todos os jornalistas ganhadores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Com adaptações em relação ao esboço concebido em 2012, foi inaugurado em outubro passado o Calçadão do Reconhecimento, no passeio defronte à praça, onde começaram a ser colocados tijolos com esses nomes.

Filha de Elifas, a artista e educadora Laura Andreato relata outras ações para celebrar a memória do pai nos seus 80 anos. Uma parceria do Instituto Elifas Andreato com a universidade Belas Artes vai disponibilizar parte do acervo do artista, para os alunos da instituição e consulta pública. Pelo mesmo projeto, foram realizados neste mês debates sobre a obra de Elifas com convidados como Tom Zé, Zeca Baleiro, Fátima Guedes e Serjão, entre outros.

Ela ressalta as dificuldades e particularidades para reunir criações do pai ao longo de décadas. “O trabalho final dele era um produto gráfico. Então essa ideia que a gente vê nas artes plásticas do original como tendo um valor, pra ele sempre foi uma coisa… aquilo não era ainda a obra, né? A vida toda ele distribuiu, dava de presente, como a maioria das capas que fez pro Martinho [da Vila], pro Paulinho [da Viola].”

“Ele era um artista que pensava o produto final, o original dele, como sendo o que saía da gráfica. Ele pensava o trabalho para ser reproduzido, distribuído. E isso, para mim, é um dos aspectos interessantes da obra do meu pai. Ainda mais agora, que o vinil está voltando, pessoas de muitas gerações podem conhecer o trabalho dele.”

Elifas Andreato nasceu em Rolândia, interior do Paraná, em 1946 e cresceu numa família marcada pela pobreza. Contava que seu avô enlouqueceu depois que uma geada destruiu o cafezal da família. Era criança quando o pai, alcoólatra, abandonou a família. Aos dez anos, vendia salgados em bordéis de Londrina para ajudar na renda de casa.

Pouco depois, seria contratado como estagiário na Editora Abril, onde logo se tornaria diretor de arte e um dos principais ilustradores e designers do país.

O trabalho na fábrica reforça a consciência social que marcaria a vida de Elifas, militante contra a ditadura que atuou na imprensa alternativa nos anos 1970, em jornais como Opinião, Argumento e Movimento. Um dos seus primeiros trabalhos, ainda adolescente, foi um cartaz para a Fiat Lux para prevenção de acidentes de trabalho —uma mão espalmada em vermelho.

A mesma palma ilustraria um dos seus últimos trabalhos, a capa de um livro para o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco sobre o mesmo tema –mortes e acidentes de trabalho. “Mostra o compromisso do Elifas, de ponta a ponta da vida, com a classe trabalhadora”, afirma Serjão.

Celebração a Elifas Andreato

  • Quando Dom. (29), das 11h às 15h
  • Onde Praça Memorial Vladimir Herzog – r. Santo Antônio, ao lado do terminal Bandeira
  • Preço Grátis