Duas mulheres me devolveram a esperança!


13/01/2023


Por José Trajano, do Conselho Consultivo da ABI, no UOL

Não andava dormindo muito bem.

Desde a morte do Pelé vinha sendo assim. Sonhava com o Rei do futebol, de quando o conheci, das maravilhosas partidas que vi dele ao vivo, da cobertura que fiz da Copa de 1970, no México. Mas quando surgiam imagens dos seus últimos dias, acordava triste e aborrecido. De mal com o mundo.

Na passagem do ano melhorei, ao festejar na praia a chegada de 2023 com a mulher amada e alguns amigos. E, principalmente, ao assistir no dia seguinte e me emocionar com a festança em Brasília na posse do presidente Lula, principalmente na subida na rampa ao lado do povo, cena que ficará eternamente gravada na história da democracia brasileira.

Vinha então sonhando com um país mais justo, livre dos fascistas e das figuras desumanas que nos atormentaram durante os últimos quatro anos. Acordava disposto e com um sorriso nos lábios.

E veio o discurso de posse do Silvio Almeida como Ministro dos Direitos Humanos. Aí foi o êxtase. As palavras de seu emocionante discurso deram voltas em minha cabeça por algumas noites:

“Trabalhadoras e trabalhadores do Brasil, vocês existem e são valiosos para nós. Mulheres do Brasil, vocês existem e são valiosas para nós. Homens e mulheres pretos e pretas do Brasil, vocês existem e são valiosos para nós. Povos indígenas deste país, vocês existem e são valiosos para nós. Pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, travestis, intersexo e não binárias, vocês existem e são valiosas para nós. Pessoas em situação de rua, vocês existem e são valiosas para nós. Pessoas com deficiência, pessoas idosas, anistiados e filhos de anistiados, vítimas de violência, vítimas da fome…” … 

Pensei, estamos no caminho certo para ser feliz de novo em do nosso país! Como foi gostoso sonhar saboreando as palavras do professor, filho do goleiro Barbosinha, do Corinthians. Que orgulho ver gente como Silvio Almeida no lugar da tresloucada Damares!

E aconteceu a barbárie de 8 de janeiro. A impotência de não poder estar ali para lutar contra os vândalos, terroristas e imbecis, mexeu demais comigo. Ver a alegria dos canalhas foi terrível. O bom humor, a esperança de dias melhores, a sensação de ter se livrado dos inimigos da democracia, foi tudo por água abaixo, misturado em um sentimento de raiva e desesperança.

Para me jogar mais para baixo, teve a morte do Dinamite. Viajei no tempo lembrando de seus incríveis gols e de sua arte como artilheiro. Lembrei de estar no Maracanã cobrindo algum jogo e os alto-falantes do estádio anunciando:

“A Suderj informa: São Januário, Roberto, Vasco 1 a 0.”

Era sempre assim. Que jogador!

Desanimado, descrente, curvado, não precisei mais do que poucos dias para me levantar, para me animar, para encher o peito de orgulho e voltar a ter esperança. E devo isso a duas mulheres: Sônia Guajajara e Anielle Franco, que ao tomar posse como Ministras na quarta-feira (11), no violentado Palácio do Planalto, fizeram discursos tocantes, com falas vigorosas e necessárias.

Agradeço as essas duas mulheres guerreiras, que tenho certeza irão ajudar e muito na reconstrução do nosso país. Porque quanto a mim, elas já reconstruíram.

PS: Não irei colocar a morte do genial Jeff Beck no balaio das desilusões. A música dele ficará eterna, embalando com a sua guitarra maravilhosa os sonhos da nossa gente que ainda tem esperança.

Sem anistia!

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