3 de outubro de 2022


Documentário e debate sobre O Pasquim homenageiam ABI


08/04/2021


 

Claquete Musical homenageia ABI com filme O Pasquim

Claquete Musical faz uma homenagem aos 113 anos da ABI, exibindo o documentário  O Pasquim – A subversão do Humor (2004), de Roberto Stefanelli, hoje, excepcionalmente numa  quinta-feira, havendo, às 19h30, um debate com um participante, Ricky Goodwin,  das edições daquele tabloide que combateu a ditadura de forma humorística. O filme estará disponível, a partir das 10 hs, no canal da Associação Brasileira de Imprensa do YouTube onde o público poderá assistir também ao debate.

A partir das 19h30, participam do debate o apresentador do programa e produtor cultural, Paulo Figueiredo; o diretor Roberto Stefanelli;  os jornalistas Ricky Goodwin e Luís Pimentel; e o produtor cultural, presidente do Instituto Henfil e cronista da coluna Cartas do Pai da revista Fórum, Ivan Cosenza, filho de Henfil que também participou da equipe do Pasquim. O documentário de 45 minutos tem direção Roberto Stefanelli; fotografia, André Carvalheira e Edson Cordeiro e narração de Luiz Carlos Linhares.

O PASQUIM

Em Wikipedia está lá a definição do Pasquim: “editado entre 26 de junho de 1969 e 11 de novembro de 1991, reconhecido pelo diálogo entre o cenário da contracultura da década de 1960 e por seu papel de oposição ao regime militar“.

O Pasquim nasceu como uma iniciativa do jornalista gaúcho Tarso de Castro, para substituir o tabloide humorístico A Carapuça, editado pelo escritor e cronista Sérgio Porto até sua morte em 30 de setembro de 1968. Tarso convocou o cartunista Jaguar e o jornalista Sérgio Cabral para iniciar a empreitada em compromisso absoluto com a iconoclastia, o deboche irrestrito, o desrespeito às formalidades jornalísticas e o dever de se tornar uma pedra no sapato dos poderosos. O nome Pasquim surgiu por sugestão de Jaguar, em termo que significa “jornal difamador, de pouca qualidade” para adiantar e se apropriar das críticas que sabia que viriam. Rapidamente juntaram-se a esse grupo os cartunistas Ziraldo e Fortuna, o jornalista Paulo Francis, Millôr Fernandes e assim estava formado o escrete principal d’O Pasquim – e começava a revolução, que ganhou, em São Paulo, uma exposição, no ano passado.

Pois entre a morte de Sérgio Porto e o lançamento do Pasquim, a realidade brasileira, que já era terrível desde o golpe militar de 01 de abril de 1964, havia ganhando contornos ainda mais sombrios com a imposição do Ato Institucional nº 5, em uma sexta-feira 13 de dezembro de 1968. A partir do AI-5 o congresso foi fechado, mandatos foram sumariamente cassados, as garantias constitucionais da população foram suspensas, prisões passaram a ser cometidas sem qualquer justificativa jurídica nem direito a habeas corpus, o toque de recolher e a censura prévia tornaram-se oficiais, assim como a tortura. Foi nesse contexto que O Pasquim foi às bancas – e era esse o monstruoso e evidente inimigo que o jornal iria enfrentar, com humor, procurando a cumplicidade com o público e com a indignação nacional como sua arma principal.

Em seis meses, o semanário que começou com uma tiragem de 28 mil exemplares, se tornou um dos maiores fenômenos editorias da história do país, alcançando vendagens médias de 100 mil exemplares por semana (maiores então que as vendas das revistas Veja e Manchete somadas) e chegando, em algumas edições, a superar os 250 mil exemplares  – sem assinaturas, somente através de pontos de venda e bancas de jornal. A essa altura, já haviam se juntado ao time outros gigantes do jornalismo e do cartum brasileiro, como Henfil, Martha Alencar, Ivan Lessa, Sérgio Augusto, Luiz Carlos Maciel e Miguel Paiva.

“Quando comecei a trabalhar no Pasquim ele tinha seis meses de vida”, lembra o cartunista Miguel Paiva, em entrevista exclusiva para o Hypeness. “Já era um grande sucesso, e o mais surpreendente é que havia se passado somente um ano da implantação do AI-5, o ato institucional que endureceu de vez a ditadura militar. No período mais dramático da vida brasileira um jornal de humor, transgressor nos costumes e na linguagem, conseguiu sobreviver e criar uma relação de cumplicidade e apoio com o leitor como nunca se tinha visto antes”. Paiva tinha somente 19 anos quando começou a colaborar com O Pasquim, e se a liberdade de expressão tinha os dias contados naquele ano de 1969, ela foi vivida com a intensidade que merece pela equipe do Pasquim.

Temas como sexo, drogas, feminismo, divórcio, ecologia, contracultura, rock n’ roll, comportamento, além, é claro, de política, repressão, censura e ditadura foram tratados nas páginas do tabloide da mesma forma com que se conversava nas mesas dos bares ou, nesse caso, nas areias da então subversiva praia de Ipanema – mas com o toque da genialidade de alguns dos maiores nomes do nosso humor e cartum. Quando a censura começou a perseguir não só O Pasquim como todos que pregavam e viviam o livre pensamento e a liberdade de expressão, foi através do humor indireto e inteligente que o jornal seguiu falando sobre tudo que queria falar – de forma indireta, metafórica, contando com a inteligência e a cumplicidade de seu público, como quem troca uma piscadela secreta que revela o real teor: lutar contra a repressão rindo na cara da censura.

Mas junto com a liberdade de expressão, a alegria irrestrita também tinha os dias contados. Ainda em 1969, a entrevista com Leila Diniz – que publicou todas as corajosas opiniões da atriz, incluindo os 71 palavrões ditos por Leila, os substituindo somente por asteriscos – acendeu a censura, que instaurou, por conta da entrevista, a famigerada Lei da Imprensa, que permitia ao regime a censura prévia aos jornais. A partir desse histórico número 22 do Pasquim, publicado em 15 de novembro de 1969, a ditadura passou a exigir que o jornal enviasse todo seu material para aprovação – ou o esquartejamento – antes de ser efetivamente publicado.

Em 1970, a perseguição indireta ao Pasquim se tornava uma guerra concreta: em 31 de outubro, a redação foi quase toda presa sob o pretexto do jornal ter publicado um cartum desonroso com um quadro de Pedro Américo, que mostrava D. Pedro I na independência, mas gritando “Eu Quero Mocotó“, citando a emblemática canção de Jorge Ben lançada pelo Trio Mocotó no mesmo ano, ao invés do grito do Ipiranga. “Foi o que bastou. Todos em cana.”, conta Miguel. Permaneceram livres e tocando o jornal alguns poucos heróis como Martha Alencar, Chico Jr, Henfil, Millôr e o próprio Miguel. “Ficamos meio clandestinos, meio assustados, tendo a rigorosa missão de fazer o jornal ser publicado sem ninguém perceber que a redação não estava ali”, lembra o cartunista.

Era, afinal, proibido que o jornal divulgasse a notícia da prisão – e os recursos utilizados pela equipe restante para manter a cumplicidade com o público foram muitos. “Tivemos que recorrer a uma súbita gripe coletiva, que teria acometido todos da redação, e que justificava a ausência da equipe principal. Esse drama durou dois meses e meio e, pensando bem nos dias de hoje, afetou em muito a estabilidade comercial do jornal”, diz o cartunista.

“Depois de um certo tempo o leitor começou a perceber a queda de qualidade. Apesar dos nossos esforços, não era o Tarso, o Jaguar, o Sérgio Cabral, o Ziraldo. Todos eram artistas muito singulares e talentosos, e a prisão acabou por começar a derrubar as vendas do jornal”, recorda Paiva.

A redação do Pasquim ficou presa até fevereiro de 1971, e nesse período a classe artística se prontificou a ajudar para que o jornal seguisse em circulação: nomes como Antônio Callado, Chico Buarque, Glauber Rocha, Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade e outros tantos intelectuais passaram a colaborar com a publicação.

A última edição, de número 1 072, foi publicada em 11 de novembro de 1991.

Pasquim no século XXI

Revista Bundas

Um primeiro ensaio para a volta da publicação deu-se através de um periódico intitulado Bundas, lançado em 1999, que durou pouco tempo. O nome Bundas era uma paródia à revista Caras, e seu lema era “Quem mostra a bunda em Caras não mostra a cara em Bundas” e “Bundas, a revista que não tem vergonha de mostrar a cara”.

OPasquim21

Em 2002, Ziraldo e seu irmão Zélio Alves Pinto lançaram uma nova edição de O Pasquim, renomeado OPasquim21. Esta versão também teve vida curta, apesar de contar com alguns de seus antigos colaboradores, e deixou de ser publicada em meados de 2004. Passaram pela publicação nomes como Fausto WolffMiguel Arcanjo PradoEmir Sader e Marcia Frazão.

Livros

Millôr no Pasquim, 1977, Millôr Fernandes; Nos bastidores d’O Pasquim, 1999, João Baptista de Medeiros VargensO Pasquim: antologia, Vol. 1, 1969-1971 (números 1 ao 150); Vol. 2, 1972-1973 (números 150 ao 200); Vol. 3, 1973-1974Em abril de 2006 a editora Desiderata lançou O Pasquim – Antologia – 1969-1971, uma compilação feita por Jaguar e Sérgio Augusto de matérias e entrevistas das 150 primeiras edições do semanário. O livro foi um sucesso, entrando para a lista de mais vendidos daquele ano e motivando os lançamentos de segundo volume em 2007 e terceiro em 2009.

Digitalização

Todas as 1 072 edições semanais foram digitalizadas pela Biblioteca Nacional (BN) e estarão disponíveis ao público em sua hemeroteca. A digitalização gerou 35 mil páginas. A BN tinha em seu acervo 602 edições, sendo o restante cedido por Ziraldo e pela Associação Brasileira de Imprensa. Será possível ler por edição e pesquisar por autor, acessando tudo o que ele publicou no jornal.

 

O Pasquim – O marginal que deu certo –

Sergio Augusto
Há quem diga — e nós não temos por que duvidar — que os três maiores fenômenos da imprensa brasileira foram, por ordem de entrada em cena, as revistas semanais O Cruzeiro (1928-1985) e Veja (1968).Não eram três? Eram. O Pasquim foi o terceiro fenômeno.

O Cruzeiro, que chegou a vender, em meados da década de 1950, 720 mil exemplares, tinha atrás de si um império jornalístico, os Diários Associados de Assis Chateaubriand. A Veja, cuja tiragem ultrapassou 1 milhão de exemplares no final do século passado, foi lançada por uma outrora poderosa fábrica de revistas, a Editora Abril. O Pasquim nasceu teso, órfão de pai e mãe, ou seja, sem uma organização sólida na retaguarda.

Ideia inicial: um jornal de humor. Com os bambas disponíveis na praça. Mas o Pif-Paf só durou oito números, ponderou um advogado do diabo — do diabo e do bom senso, pois a revista de humor lançada por Millôr Fernandes em 1964 resistira só oito edições às pressões da censura imposta pela recém-implantada ditadura militar. Depois veio o tabloide A Carapuça, que não sobreviveu à morte de seu editor, Sérgio Porto, o popular Stanislaw Ponte Preta, em 30 de setembro de 1968.

Empenhado em manter A Carapuça tal como era, Murilo Pereira Reis, que à frente da Distribuidora Imprensa bancara o tabloide, convidou para editá-lo o colunista Tarso de Castro, do jornal Última Hora, que, por sua vez, convocou Jaguar e Sérgio Cabral, cuja preferência por uma publicação inteiramente nova, com outro nome, acabou prevalecendo.

O nome custou a sair. “Que tal Pasquim?”, sugeriu Jaguar, que àquela altura já atraíra Claudius e o publicitário Carlos Prósperi para cuidarem do projeto gráfico. “Vão nos xingar mesmo de pasquim”, justificou Jaguar a preventiva carapuça.

POR RICKY GOODWIN

A história do Pasquim, a partir dos anos 1980, é a saga de um jornal de humor tentando manter a sua relevância num país em transformações, muitas das quais ocorrendo em decorrência do que o próprio jornal provocou nos anos anteriores.

A ditadura brasileira persistiria por metade da década de 1980, mas ralentando, finalmente, e à medida que a censura e os controles sobre os veículos de comunicação afrouxavam — mesmo que num simulacro de abertura —, janelas se abriam para a cobertura da realidade pela imprensa tradicional. Por muitos anos o Pasquim fora uma das poucas fontes de informação crítica e se transformara numa central da resistência contra o autoritarismo. Além da equipe talentosa que compunha seu núcleo central, recebia colaborações por ser um escoadouro para notas e reportagens impossíveis de serem publicadas em outros veículos. Isso mudou. E quando as trevas do autoritarismo que o Pasquim tanto combateu foram clareando, a chama do jornal como símbolo foi se apagando. Alguns nomes importantes do semanário inclusive saíram para trabalhar nessas possibilidades tradicionais.

A própria política foi se transformando, após o surgimento de um mundo binário em que todos se uniram contra um inimigo em comum. Os caminhos para os objetivos se multiplicavam: além do MDB anti-Arena, passavam pelo PDT trabalhista, pelo novo partido das massas que era o PT ou passeavam por campos desprezados pela esquerda tradicional, nas searas da ecologia, da liberdade dos corpos, dos direitos das mulheres, dos homossexuais e de outras minorias.

O jornal batalhou muito pelo retorno dos exilados, e quando alguns deles voltaram ao país, com sua vivência em outras sociedades, trouxeram ideias que por vezes destoavam dos conceitos dos editores do Pasca. O jornal se abriu para esses novos temas, em alguns breves períodos, mas o que prevaleceu foi o ranço da militância standard — por mais gloriosa que tivesse sido — e o bonde passou….

Fonte Biblioteca Nacional: Acervo do O Pasquim disponível para o público

 http://bndigital.bn.gov.br/dossies/o-pasquim/apresentacao-o-pasquim/

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