19/06/2026
Por Lucas Salgado, em O Globo

Em 19 de junho de 1898, Afonso Segreto, um italiano radicado no Brasil, voltava ao Rio após um período em Nova York e Paris. Nessa viagem havia comprado filmes para exibir na então capital e equipamento para produzir seus próprios curtas, na época chamados de “vistas”. E começou antes mesmo de desembarcar: a bordo do navio que o trazia, Afonso registrou imagens da entrada da baía de Guanabara. A data ficou conhecida por marcar as primeiras filmagens no país, razão pela qual se comemora nesta quarta-feira o Dia do Cinema Brasileiro — que faz, portanto, exatos 128 anos.
O jornal Gazeta de Notícias do dia 20 de junho de 1898 publicou aquela que é considerada a “certidão de nascimento” do cinema nacional, uma nota simples em que mencionava a filmagem, único relato oficial do ocorrido. “O sr. Afonso Segreto há sete meses que fora buscar o aparelho fotográfico para preparo de vistas destinadas ao cinematógrafo e agora volta habilitado a montar aqui uma verdadeira novidade, que é a exibição de vistas movimentadas do Brasil. Já ao entrar à barra, fotografou ele as fortalezas e navios de guerra. Teremos para dentro em pouco verdadeiras surpresas”, destacou a publicação em trecho citado no livro “A bela época do cinema brasileiro”, importante registro histórico de Vicente de Paula Araújo.
É justamente este registro na imprensa da época que consolida a data e o pioneirismo de Afonso. No mesmo dia em que foi publicada a matéria, seria realizada uma sessão com a vista no Salão de Novidades Paris, primeira sala de cinema fixa do Brasil, estabelecida em 1897 na rua do Ouvidor, no Rio, por Paschoal Segreto, irmão de Afonso e importante nome do entretenimento no Brasil no final do século XIX e início do XX. Para a exibição foram convidadas autoridades como o presidente da República Prudente de Morais e o jurista Rui Barbosa. Um convite para a sessão faz parte do acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.
Acontece que a sessão não foi realizada da forma que se pretendia. Ainda um cinegrafista inexperiente, Afonso abriu inadvertidamente a câmara e a película acabou danificada, como relatou o sobrinho Domingos Segreto em depoimento presente no livro “Palácios e poeiras”, de Alice Gonzaga. Assim, o primeiro filme brasileiro nunca viu a luz do dia. Os irmãos Segreto acabaram exibindo vistas estrangeiras para o público presente, que ficou frustrado.
Hernani lembra que apesar do fracasso na primeira tentativa, Afonso vai sim se tornar o primeiro realizador cinematográfico do país. As primeiras filmagens completas no país ocorreram menos de um mês após o desembarque de Afonso no país, no dia 5 de julho, quando ele registrou duas vistas: o desfile fúnebre do marechal Floriano Peixoto; e a visita de Prudente de Morais ao cruzador Benjamin Constant no Arsenal de Marinha. Entre 1898 e 1903, Afonso registrou mais de 100 filmes, e todos se perderam com o tempo, como todo cinema brasileiro antes de 1909. Por trás da Empresa Paschoal Segreto, Paschoal se manteve como principal exibidor e produtor do Brasil até 1907, mas aos poucos vai deixando o cinema de lado para investir em outros campos do entretenimento, como o teatro, sua grande paixão. Hoje, a única herança viva da família Segreto no Rio é o Teatro Carlos Gomes, no Centro.
Outras hipóteses
Alguns consideram que o primeiro filme brasileiro foi, na verdade, “Chegada do trem em Petrópolis”, em razão de um recorte do jornal Gazeta de Petrópolis que convidava para uma sessão de vistas organizada por Vittorio di Maio no dia 1º de maio de 1897, no Theatro Cassino de Petrópolis, que apresentaria uma obra com aquele nome. A falta de matérias reagindo à vista e de informações sobre quem seria o cinegrafista, e o fato de di Maio ter vendido posteriormente seu projetor e acervo para Paschoal, sem qualquer menção à obra, faz com que historiadores contestem sua existência. Lembrando que sessões de cinema já aconteciam no Brasil desde 8 de julho de 1896.
Doc a caminho
O documentário “Os irmãos Segreto”, dos cineastas italianos Federico Ferrone e Michele Manzolini, uma coprodução entre Brasil e Itália, conta um pouco da história dos irmãos Paschoal, Gaetano e Alfonso, que deixaram San Martino de Cilento para se tornarem importantes nomes da cena cultural da Belle Époque carioca. Gaetano, o irmão do meio, era sócio de Paschoal em suas empresas, mas dedicou-se à sua paixão pelo jornalismo, ajudando inclusive a divulgar os filmes realizados e exibidos pelos irmãos.
— Os Segreto foram os nossos irmãos Lumière. Mas mais do que pioneiros do cinema, foram pioneiros do entretenimento, dessa cultura carioca do divertimento — destaca Juliana de Carvalho, produtora brasileira do filme através da Bang Filmes. — No filme também falamos sobre a influência da imigração italiana no Rio, que é pouco valorizada. Sempre falamos das influências francesas, como se todos os italianos tivessem ido para o Sul, mas não foi bem assim. O filme vai mostrar que na nossa cultura, temos muito mais de italianos do que de franceses.
O longa integra a programação do 8½ Festa do Cinema Italiano, evento que acontece entre os dias 25 de junho e 1º de julho nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Aracaju, Recife, Porto Alegre e Florianópolis.
Programação dedicada
O Dia do Cinema Brasileiro renderá programação especial no Canal Brasil, com uma maratona especial a partir das 14h30. A programação reúne clássicos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Cabra marcado para morrer”’, “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” e “Central do Brasil”.
Aproveitando as comemorações dos 128 anos de cinema no Brasil, O GLOBO preparou uma votação para escolher os 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos. Para isso, convidou 185 profissionais do audiovisual, entre diretores, produtores, roteiristas, atores, compositores, fotógrafos e críticos, dentre outras áreas.
Cada votante recebeu um desafio, elencar seus 20 filmes brasileiros favoritos. O jornal somou estes votos e compilou numa lista final com o nosso top 100. O ambiente especial do GLOBO traz a lista completa dos 100 melhores filmes brasileiros, com informações sobre cada obra e depoimentos de votantes, além da possibilidade do leitor criar seu próprio ranking. Confira o infográfico: Os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos
Participaram da votação nomes como Walter Salles, Kleber Mendonça Filho, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Marcos Palmeira, Anna Muylaert, Gabriel Martins, Carla Camurati, Ana Carolina, Walter Carvalho, Rodrigo Teixeira, Johnny Massaro, Alice Carvalho e Cauã Reymond. A lista completa dos eleitores e o ranking dos 100 melhores filmes está disponível em infográfico especial no site do GLOBO.
E o melhor filme brasileiro de todos os tempos é… “Central do Brasil” (1998), clássico de Walter Salles, que foi o líder em citações.
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Estrelado por Fernanda Montenegro, Vinicius de Oliveira, Marilia Pêra e Othon Bastos, o longa é um dos filmes brasileiros de maior reconhecimento internacional. Conquistou o Urso de Ouro do Festival de Berlim, o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, além de duas indicações ao Oscar.
— Em “Central do Brasil”, a busca pelo pai também era a busca pelo país. É um filme que parte Brasil adentro atrás de reflexos da identidade brasileira, depois de 21 anos de ditadura militar e dos anos do desgoverno Collor. Que o desejo que norteou o filme ainda esteja vivo hoje é um presente para todos nós que o realizamos de forma tão coletiva — afirma Walter Salles. — É uma honra fazer parte do cinema brasileiro, numa lista com filmes que admiro tanto. Viva cada filme dessa lista e viva a pluralidade do Cinema Brasileiro, do qual é uma honra fazer parte.
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Considerado o “pai do Cinema Novo”, Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) foi o cineasta com maior número de obras na lista ao lado de Karim Aïnouz, com um total de quatro filmes cada. O paulista que construiu sua trajetória no Rio marcou presença com “Vidas secas”, “Rio, 40 graus” (1955), “Rio, Zona Norte” (1957) e “Memórias do cárcere” (1984), enquanto que o cearense foi lembrado pelos trabalhos em “Madame Satã” (2002), “O céu de Suely” (2006), “A vida invisível” (2019) e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), este último com codireção de Marcelo Gomes. Eduardo Coutinho, Glauber Rocha, Kleber Mendonça Filho, Leon Hirszman e Walter Salles vêm a seguir com três filmes cada.
O top 100 conta com 56 obras do século XX e 44 do XXI. Com 21 filmes, a década inicial dos anos 2000 é a recordista de presenças, reflexo de dois anos de lançamentos relevantes: 2002, com “Cidade de Deus”, “Madame Satã”, “Amarelo manga”, “Edifício Master” e “Ônibus 174”, e 2007, com “Saneamento básico, o filme”, “Estômago”, “Tropa de elite”, “Santiago” e “Jogo de cena”. Período principal do Cinema Novo, os anos 1960 marcam a segunda década com maior número de obras, com um total de 17.
A lista conta com 17 filmes dirigidos ou codirigidos por cineastas mulheres: “Cidade de Deus” e “Notícias de uma guerra particular” (1999), codirigidos por Kátia Lund, “A hora da estrela”, de Suzana Amaral, “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert, “Terra estrangeira” (1996), codirigido por Daniela Thomas, “Bicho de sete cabeças” (2001), de Laís Bodansky, “Mar de rosas” (1977), de Ana Carolina, “Manas” (2024), de Marianna Brennand, “Carlota Joaquina, princesa do Brazil” (1995), de Carla Camurati, “Amor maldito” (1984), de Adélia Sampaio, “Que bom te ver viva” (1989), de Lúcia Murat, “As boas maneiras”, codirigido por Juliana Rojas, “Mato seco em chamas” (2022), codirigido por Joana Pimenta, “Era o Hotel Cambridge” (2016), de Eliane Caffé, “Carvão” (2022), de Carolina Markowicz, “Elena” (2012), de Petra Costa, e “Justiça” (2004), de Maria Augusta Ramos.
O levantamento também contempla a diversidade temática e de gênero do audiovisual brasileiro. Além de dramas como o líder “Central do Brasil” ou comédias como “O homem do Sputnik” (1959), a lista reúne obras de animação (“O menino e o mundo”, 2013), terror (“À meia-noite levarei sua alma”, 1964), musical (“Os saltimbancos trapalhões”, 1981), faroeste (“Oeste outra vez”, 2024), ação (“Tropa de elite”) e policial (“O assalto ao trem pagador”, 1962). Destaca-se ainda a eleição de dois curtas-metragens (“Alma no olho” e “Ilha das flores”), além de 15 documentários, incluindo obras que misturam elementos da ficção e do documental, como “Branco sai, preto fica” (2014) e “Viajo porque preciso, volto porque te amo”.