10/04/2026

Vista aérea do Palácio Monroe, em 1961 (Foto: Agência O Globo)
Matéria de domingo (5/4) omite que jornal fez uma dura campanha pela destruição do prédio, que chegou a chamar de “monstrengo arquitetônico da Cinelândia”
Rogério Marques / QuarentenaNews
O Globo perdeu, no domingo, mais uma boa chance de acertar as contas com o passado, mais uma vez, e reconhecer um grave erro. Desta vez, com relação à demolição de um prédio que até hoje paira como um fantasma sobre a Praça Mahatma Gandhi, na Cinelândia – o Palácio Monroe.
Em matéria de página inteira, sobre os 50 anos da demolição do Monroe, o jornal preferiu não admitir que errou ao liderar uma campanha pela destruição de um dos prédios mais históricos do Rio de Janeiro, algo que ainda causa perplexidade à população. Pelo visto, o fantasma do Monroe até hoje assombra o Globo.
O Palácio Monroe, assim batizado em homenagem ao ex-presidente americano James Monroe (1758-1831), já deu origem a livro, documentário, teses acadêmicas, inúmeros artigos e reportagens. A história começa com a construção de um pavilhão do Brasil na Exposição Universal de 1904 em Saint Louis, nos Estados Unidos.
Na época, o presidente do Brasil era Rodrigues Alves (1848-1919), que deu ao engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855-1935) a missão de construir o prédio. Entre os 12 pavilhões, o brasileiro foi considerado o mais bonito. Recebeu do júri a medalha de ouro do grande prêmio de arquitetura, e muitos elogios da imprensa americana. Mas o trabalho de Souza Aguiar não acabou aí.
Ao fim da exposição, o engenheiro supervisionou o desmonte do palacete e trouxe ao Brasil as estruturas de aço. No Rio, então capital federal, o prédio foi reconstruído na recém-inaugurada Avenida Central, atual Rio Branco. Abrigou a Câmara dos Deputados por oito anos e o Senado Federal, por 35 anos.

O Palácio Monroe iluminado, em 1920, para a visita do Rei Alberto, da Bélgica, ao Rio (Foto: Guilherme Santos/ Instituto Moreira Salles)
A partir dos anos 60, com a transferência da capital para Brasília, o Palácio Monroe passou a ser alvo de críticas de alguns setores, principalmente arquitetos modernistas como Lúcio Costa, que pressionavam por sua demolição, o que acabou acontecendo em 1976.
Até hoje circulam algumas versões sobre o motivo da destruição do Monroe. Uma delas é que teria sido uma vingança do ditador Ernesto Geisel, então no poder, movido por uma antiga rixa com Rafael de Souza Aguiar, filho do autor do projeto. Isso nunca foi comprovado. Muita gente ainda acredita que o verdadeiro motivo da demolição foi a construção do metrô, no trecho entre a Cinelândia e a Glória. Essa versão não se sustenta, porque várias fotografias da época mostram a curva que foi feita para desviar o metrô do Palácio Monroe, e assim preservá-lo.

As obras do metrô contornam o Palácio Monroe. Ao contrário do que muitos pensam até hoje, o metrô não foi responsável pela demolição do Monroe (Foto: Arquivo RioTrilhos)
Um dos absurdos nessa história: o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi favorável à demolição, com apoio do arquiteto Lúcio Costa, que havia sido chefe da divisão de estudos e tombamentos. Costa e outros arquitetos modernistas desprezavam o ecletismo como estilo arquitetônico. Essa visão levou à destruição de outras construções históricas na cidade, de arquitetos importantes. A Avenida Rio Branco perdeu várias, dos tempos de sua inauguração como Avenida Central.
O papel do jornal O Globo neste episódio triste da história do Rio jamais pode ser esquecido ou omitido. A campanha do jornal pela destruição do Monroe foi violenta. Durante anos, o jornal abriu espaço em suas páginas para críticos do prédio. Em artigos, o palacete era chamado de “trambolho” pelo jornal. Basta uma breve consulta na internet para se constatar que em 10 de janeiro de 1961 o Globo publicou: “O Monroe representa um trambolho que nada justifica enfear o Rio”.
Na outra ponta da corda, em defesa da preservação do palacete, estavam o Clube de Engenharia e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). O Clube de Engenharia lançou um manifesto pela preservação do Monroe que contou com a adesão de 162 engenheiros, arquitetos e urbanistas, entre eles o paisagista Roberto Burle Marx.
Não adiantou. Em 1975 o ditador Ernesto Geisel autorizou o fim do Monroe, posto abaixo no ano seguinte. Embora tivesse sofrido, ao longo dos anos, algumas descaracterizações estruturais, nada justificava aquele ato de violência contra a cultura, contra o Rio, contra a nossa história.

Vista aérea do Palácio Monroe com a demolição em fase avançada (Foto: Reprodução)

Os famosos leões de mármore de Carrara sendo removidos, na demolição do palácio (Foto: Reprodução)
No lugar do palácio, existe hoje o chamado “Chafariz do Monroe”, comprado na Áustria por Dom Pedro II. Tombado pelo Iphan, já muitos anos o chafariz não funciona e vem sendo vandalizado. Algumas asas de bronze dos anjos em sua base já foram arrancadas.
Ao redor, a tragédia social e cultural no Centro do Rio se repete. A estátua de Gandhi, presente do governo da Índia ao Brasil, teve o bastão do Mahatma furtado. Bem ao lado da praça, o Passeio Público, projetado por Mestre Valentim, deixou de existir com jardim, totalmente destruído e igualmente tombado pelo Iphan.
Caso não tivesse sido demolido, por absoluta estupidez, o Palácio Monroe poderia hoje estar abrigando uma escola ou um centro cultural. Também de autoria do engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar, como o Monroe, permanece ali bem perto, na Avenida Rio Branco, o belo prédio da Biblioteca Nacional.
Quando o ditador Ernesto Geisel deu a ordem de demolir o Palácio Monroe, o jornal O Globo se vangloriou da campanha que comandou durante anos, em 11 de novembro de 1975: “Por decisão do Presidente da República, o Patrimônio da União já está autorizado a providenciar a demolição do Palácio Monroe. Foi, portanto, vitoriosa uma campanha deste jornal que há muito se empenhava pelo desaparecimento do monstrengo arquitetônico da Cinelândia”.
(Fonte: “Palácio Monroe, da construção à demolição”, de Sergio A. Fridman)