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Democracias não apagam palavras


22/08/2026


Por Lilia Schwarcz, no Instagram

Há­ algo de muito revoltante — e também revelador — quando uma instituição da democracia tenta decidir quais palavras historiadores podem usar (ou não) para falar do passado.

Pois bem. Uma comissão da Câmara dos Deputados propôs cortes no livro Independências do Brasil, que seria publicado pela própria Edições Câmara. A obra reúne cerca de 50 historiadoras e historiadores e já estava revisada, diagramada e com contratos de cessão de direitos assinados.

Entre as intervenções, uma chama especialmente a atenção: em pelo menos 13 trechos, sugeriu-se substituir “ditadura militar” por “regime militar” ou “governo militar”. Houve também propostas para suavizar passagens referentes à tortura praticada durante a ditadura.

Mas a tesoura foi além. Foram questionados ou cortados trechos sobre direitos indígenas e marco temporal, Haiti, Guerra do Paraguai e até uma referência ao samba-enredo da Mangueira de 2019, que propunha olhar para “a história que a história não conta”.

Com toda razão, os organizadores — André Machado e Andréa Slemian, da Unifesp, e Claudia Chaves, da UFOP — recusaram alterações que alterariam o sentido dos textos. Depois de cerca de um ano de impasse, a Câmara informou que a publicação da obra não está mais prevista.

Ditadura não é sinônimo de governo. É estado de exceção. É preciso nomear e reconhecer o arbítrio desses tempos sem democracia e suas violências. O Brasil viveu, entre 1964 e 1985, uma ditadura que cassou mandatos, suspendeu direitos políticos, censurou, perseguiu, prendeu, torturou, matou e fez desaparecer opositores.

É especialmente perturbador que, tantos anos depois, a palavra “ditadura” ainda incomode mais do que aquilo que a ditadura fez.

A História está sempre aberta a novas perguntas, documentos e interpretações. É assim que funciona o conhecimento histórico. Outra coisa, muito diferente, é o poder político determinar quais palavras os historiadores devem retirar para tornar o passado mais palatável. Isso se chama censura

Democracias não apagam palavras.

Precisam aprender a conviver com a sua História — sobretudo com aquela que incomoda.