Quinta-feira, 29 de julho de 2010
Rubem Mauro Machado
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O que aprendemos no Morro da Providência
20/6/2008

A tortura e morte de três jovens no Morro da Providência, entregues por militares à facção de uma comunidade rival, em plena luz do dia de uma cidade que gosta de se proclamar maravilhosa, é emblemático, sob vários pontos de vista, da sociedade que criamos neste País, uma das mais bárbaras, ouso dizer, de todo o mundo e de todos os tempos.

A ferocidade gratuita dos traficantes, que nos lembrou o sacrifício de Tim Lopes, entre mil outros vis episódios quase diários, mostra bem a que grau de animalização chegou uma grande parte de nossa juventude, mantida na ignorância e no abandono, destituída dos mais elementares valores civilizatórios, guiada apenas por impulsos cegos e primários da mais estrita sobrevivência, como se ainda vivêssemos em cavernas, como se não tivéssemos atravessado um longo e penoso processo de aprimoramento cultural ao longo de séculos. Temos mais uma vez postos a nu diante de nós grupos que perderam quaisquer resquícios de humanidade, que parecem pouco acima de lobos ou macacos, se é que estão.

A utilização do Exército numa obra de objetivos claramente eleitoreiros, para servir à politicalha de um candidato que se vale de métodos clientelistas para tentar chegar ao poder municipal, primeiro degrau de uma escalada maior, mostra a promiscuidade entre o público e o privado, o uso despudorado da máquina estatal para servir ao interesse partidário.

A facilidade com que a força armada se deixou usar, para atender às vontades e caprichos de dirigentes políticos do momento, denota a erosão de valores maiores, a começar pelo singelo orgulho profissional, passando pelo corporativismo e a consciência de seu papel constitucional.

Talvez não seja por mero acaso que o tal Tenente Vinícius tenha se rebelado contra a disciplina e a hierarquia, desrespeitando a ordem do capitão que o mandara soltar os três rapazes (poderia ter havido mais mortos, se pelo menos mais dois não tivessem conseguido escapar no momento da detenção), dizendo inclusive que estava “cagando” para seu superior e que por bem ou por mal iria castigar os jovens: isso é bem típico, para usar um termo da moda, da anomia que acomete hoje a sociedade brasileira, onde o primado da lei, onde todos os valores comunitários, toda a solidariedade que deve tipificar uma nação parecem subvertidos pelo mais rasteiro individualismo, pela busca única e exclusiva da vantagem própria, onde o dinheiro-fetiche é o secreto e verdadeiro deus a quem todos reverenciam, sociedade em que a única lei válida parece ser a do Gerson, a do “gosto de levar vantagem em tudo”, a do “eu sou mais eu”, a do “sabe com quem está falando?”, a do “meu pirão primeiro” e do “não tô nem aí”.

Por fim, o apoio do Presidente Lula, por mero interesse eleitoreiro, a um candidato oriundo de uma das mais impressionantes máquinas já criadas — no Brasil, mas hoje de âmbito mundial — de manipulação das carências materiais e espirituais do povo, uma poderosa estrutura que sabe manipular as frustrações coletivas como talvez antes na História só o nazismo foi capaz de fazer; uma igreja que, quando criticada, se articula para calar a imprensa através de uma enxurrada de ações articuladas em todo o País; que, diante da indiferença geral, montou e continua a ampliar um vasto império de comunicação e que tem o projeto declarado de se apoderar do poder estatal, contando já em suas fileiras (é assustador pensar nisso) com nada menos que o Vice-Presidente da República; bem, esse apoio da maior autoridade política do País, de um inegável líder de massas, de uma figura, queiram ou não, de prestígio mundial, demonstra uma insensibilidade, uma cegueira, de deixar qualquer um arrepiado. A perspectiva de um Estado teocrático, o mais reacionário de todos os regimes, de um Brasil talibã, de clérigos determinando o que é certo ou errado, o que se pode ver ou ler, pensar e dizer, é de dar pesadelos a qualquer amante da liberdade. Pode-se argumentar que essa é uma hipótese muito remota para ser considerada. Mas Hitler só chegou ao poder supremo na Alemanha porque também de inicio ninguém levou a sério um grupelho de fanáticos reunidos em torno de um histérico.

O triste episódio do Morro da Providência mostra o quanto este País está podre. Pelo menos para isso ele serviu.


O repórter ao lado do corpo
 
O corpo esquartejado de uma mulher é encontrado junto às pedras do Arpoador, os pedaços acondicionados em sacos pretos de plástico. Ricardo Menezes, boêmio repórter de um jornal carioca, morador do vizinho Leblon, passa a noite ao lado do macabro achado, em companhia do viúvo da vítima e de policiais, em mais um infindável plantão. Durante aquelas horas mortas, balizadas pela lembrança de versos de Nelson Cavaquinho, rememora fatos de seu passado recente ou remoto, sobretudo as incompatibilidades viscerais com a ex-mulher e com o filho e a filha, e reavalia o seu trabalho, o papel social que desempenha.

Com esses elementos simples, o experiente jornalista Fernando Molica constrói o romance “O ponto de partida”, recentemente lançado pela Record. Embora a visão que o personagem-narrador tenha da vida e da profissão seja amargurada, o enxuto romance é de leitura fácil e agradável, temperado com algumas pitadas de humor e farta ironia.

São muito poucas, salvo engano, as obras de ficção brasileiras que têm um jornalista como protagonista ou as redações como ambiente. Isso deve ser um motivo a mais para que a nossa categoria se debruce sobre a reflexão que o livro traz, propiciadora de um bom debate. Ainda que seja obra capaz de prender sem dificuldade também os leitores não-jornalistas.

Não li os romances anteriores de Molica, “Notícias do Mirandão”, que está prestes a virar filme, e “Bandeira negra, amor”, de modo que não posso traçar um paralelo entre eles. Mas a sensação que este “O ponto de partida” me deixa é a de um ficcionista vocacionado em processo de crescimento, que cria uma justa expectativa em relação às suas próximas obras.


Soneto sobrevivente

Já se cansou de anunciar a morte do velho soneto, do mesmo modo que muitos vivem a decretar a morte do romance, como anteriormente se acreditou que o cinema mataria o teatro, a televisão acabaria com o rádio. Mas essas formas e meios se recusam a morrer e de vez em quando se mostram com a saúde de um estivador do cais.

No caso do soneto, para comprovar o dito acima, recebo de Luís Antonio Cajazeira Ramos “Mais que sempre”, editado pela valente 7 Letras, a editora de Jorge Viveiros de Castro. Com o valioso aval de outro poeta baiano, Ruy Espinheira Filho, e do conhecido crítico Antonio Carlos Secchin, o livro é uma antologia que reúne quase uma centena de poemas, quase todos sonetos, alguns reflexivos, outros mais líricos, alguns francamente debochados, na linha de Bocage. Dele diz Ruy Espinheira: “Como sonetista — pois soneto é o seu meio principal — Luís Antonio Cajazeira Ramos situa-se entre os melhores da poesia brasileira. Trabalha com naturalidade no espaço dos 14 versos, adicionando à sua voz o melhor da tradição e, em contrapartida, enriquecendo-a com seu timbre pessoal.”

O quarteto que abre o livro do autor cinqüentão é: “Um dia perderei a juventude,/ Se já não a perdi. Perdi a conta/ de tudo o que perdi. Hoje o que conta/ é tudo que não sou, não sei, não pude.” 

rubemmauro@uol.com.br



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