

Nem sempre uma história tem que ser grande para ser uma grande história. O livro de José Eduardo Agualusa “O vendedor de passados”, que ganhou em 2007 o prêmio de melhor ficção estrangeira, concedido pelo jornal britânico Independent, começa de forma espantosa e se desenvolve maravilhosamente bem até o final. O que torna as 198 páginas da edição brasileira da Gryphus um admirável passeio literário, extremamente saboroso. Para nós brasileiros, o texto ainda por cima tem a curiosidade de nele muitas vezes o Brasil ser citado, numa clara demonstração de que o escritor angolano, que tanto nos visita, seja para lançar livros, seja para participar de feiras literárias, realmente nutre generosa simpatia pela Terra Brasiliensis. Que, tudo indica, parece ter cortado de ponta a ponta, em suas múltiplas andanças.
A história de Felix Ventura, o albino que vendia passados a seus clientes numa terra arrasada, isto é, arvores genealógicas, avôs, avós e pais de respeito, além de toda uma biografia falsa, se inicia com a narrativa de uma lagartixa ou osga, que passeava pelas paredes do casarão onde morava o protagonista. Só a partir deste início o livro já vale a pena. Pois é claro que a princípio não entendemos direito quem está a narrar aquela maravilhosa visão do crepúsculo, com as nuvens, em labaredas, a formarem no céu legiões de anjos. E levamos uma espécie de susto ao saber da boca de quem vinham tantas palavras cáusticas, sonhos e visões líricas da natureza. Não é sempre que nos deparamos com uma lagartixa sonhadora, sábia e poeta, reencarnação de um homem torturado, com passado misterioso.
Dividido em capítulos bem curtinhos, facílimos de serem lidos, o livro é uma espécie de aula de literatura e de concisão, nos surpreendendo não só pelo que nos conta, mas pela beleza e exatidão das palavras escolhidas por Agualusa. Com isso, passei a gostar um pouquinho mais do escritor um tantinho belo demais para escritor, que sempre se veste com camisetas pretas colantes, tem um lustroso cabelo negro e um corpo musculoso queimado de sol, que parece ser sarado. Aparências, mera aparências. Somos apenas em parte responsáveis pela forma externa que Deus nos deu. O angolano nascido na cidade de Huambo, em 13 de dezembro de 1960, pode ser vaidoso, se quiser, não só por ter recebido um prêmio na Inglaterra, difícil mercado a ser conquistado, mas porque realmente entende do riscado. Domina a língua, que também é nossa, sabe contar uma história, é criativo e tem sensibilidade. E apesar de sua enxuta carne de modelo de páginas de revistas masculinas, pelo que escreve, obviamente, Agualusa vive num mundo espiritualizado, de águas muito mais profundas do que possamos imaginar diante de seu terreno invólucro moreno.
São poucos os personagens que se movimentam em “O vendedor de passados”, buscando recuperar ou enterrar ainda mais o que foi soterrado no tempo. Apenas cinco giram, tontos, como mariposas, em torno das rodas das ampulhetas e clepsidras. Todos eles com tristes, infinitamente dolorosas, histórias fabulosas. Que de início parecem ser totalmente separadas entre si, e aos poucos vão se entremeando, até chegarmos num grand finale ou clímax. De certa forma, apesar da extensão, pela estrutura, quase que o livro de Agualusa poderia ser uma grande novela ou conto. Com seu fecho terrível, que de repente tudo explica. Dando sentido a tudo que até então estava sem sentido. E nos tornando tão próximos de Angola e suas misérias. Já que o país, também ex-colônia de portugueses, tem tanto a ver com nossa história e com alguns personagens que a fizeram, como Salvador Correia de Sá.
Cada vez mais, a partir de seus escritores, sinto que tenho que aprender mais sobre a África. E entendo o que Alberto da Costa e Silva quer nos ensinar quando chama o Atlântico de um rio, um longo rio que nos separa da costa africana. Somos países irmãos, e ainda bem que, consciente disso, Agualusa, eterno viajante à caça de vivências e informações, ama passear por nossas plagas, reforçando com sua ótima literatura os laços que nos ligam, mas que às vezes ficam em frangalhos, por falta de conhecimento ou pura ignorância.
E não só a necessidade de melhor conhecer a África apreendi de “O vendedor de passados”. A pequena obra-prima de Agualusa fortalece minha idéia de que não devemos temer o passado, e muito menos ficar com receio de narrá-lo. Cada um de nós tem a sua própria memória. A memória pessoal, a memória de familiares e amigos, a memória do país. Um rico manancial de histórias. Por outro lado, não adianta querer comprar no mercado, que hoje em dia tudo vende, tudo banaliza e transforma em mercadoria, uma nova vida, uma nova história, um novo passado, uma nova memória. Não se apagam as dores. Os sofrimentos. Talvez só narrando possamos suportar a carga do passado. Com palavras que o iluminem. Criando labaredas no céu e legiões de anjos. Com suas espadas vingadoras, harpas, músicas celestes. E mistérios.
Cosmopolitismo e Camões
Acho que já contei que quando estive em Parati, na última Flip, quase não pude ver os encontros literários, mas consegui pelo menos dar uma olhada no finalzinho de um debate do qual participaram Mia Couto e Agualusa. Pois bem, neste final, o intermediador perguntou a Agualusa se por acaso ele não exagerava em seu cosmopolitismo, sua mania de viajar, lançar livros no exterior, sua curiosidade por outros países. E se com isso não estava a abrir mão de suas raízes angolanas. O autor de “O vendedor de passados” e de “O ano em que Zumbi tomou o Rio” respondeu muito simplesmente que em quaisquer lugares que estivesse no mundo, seja Lisboa, Londres, Berlim, Nova York ou Rio, sempre seria um angolano. Um homem que nasceu em Angola, passou a infância em Angola, estudou em Angola, viveu a adolescência em Angola. Ou seja, todas as memórias de sua formação vinham do chão angolano, da terra, do céu e do mar africanos. E pudesse narrar o que narrasse, estivesse onde estivesse, o que estaria a passar para o mundo era sua visão de angolano. Mas que não abriria mão de ver outros países. Conhecer outras histórias e outros povos, não considerando que desta forma estava a ser menos fiel às suas origens, suas raízes.
Agualusa não quer prisões. Reais, espaciais ou metafóricas. E está certo. Obviamente. E também não deseja patrulhas e policiamentos. Tem fome de vida. Curiosidades a serem saciadas. Inquietudes. E como ele mesmo disse, ninguém há de lhe tirar do peito seu coração de angolano. Com cheiros, dores e sabores de sua terra.
Ah, os radicalismos. Os rancores. As dificuldades de comunicação. Ou pelo menos os passados que pesam. Ao final deste encontro, fiquei sabendo que havia quem considerasse em Angola e em Moçambique que o nome do Prêmio Camões — honraria concedida anualmente por Brasil e Portugal a escritores da comunidade lusófona — tinha que ser mudado, já que Camões foi um poeta a serviço da colonização, ao cantar as conquistas portuguesas. Os descobrimentos. Enfim, passados mais de 500 anos, “Os Lusíadas” viraram apenas e tão somente uma obra colonialista. A partir deste pressuposto, acho que também nós, brasileiros, não deveríamos mais ler Camões. Não fomos escravizados, torturados, mortos aos magotes, mas ficamos 300 anos sem livros. Sem imprensa. E sob o jugo de decretos que impediam o florescimento intelectual e econômico de nosso País. Abaixo Camões! Nunca mais Inês de Castro e o Gigante Adamastor! Morte ao sebastianismo!
Ah, o estranho povo alemão
Acho que tenho uma não muito sadia obsessão com relação à Alemanha, suas culpas, o Holocausto. Peguei um filme alemão para ver, na loja de DVDs, chamado “Plano de guerra”. A história se passava em Berlim, nos anos que se sucederam ao final da Segunda Guerra Mundial, quando Stálin decretou um férreo bloqueio por terra, impedindo que alimentos, carvão e medicamentos chegassem à ex-capital do Reich. A saída encontrada pelos ocupantes norte-americanos para impedir que todos os berlinenses morressem de frio, fome e doenças foi o corredor aéreo. O filme, produzido em 2005, conta isso. A luta dos generais norte-americanos sediados em Berlim para obter mais aviões, quando a guerra fria se consolidava e os EUA haviam começado a guerra na Coréia. No pano de fundo, uma história de amor entre uma alemã, cujo esposo fora obrigado a ir para a Rússia, em 1945, e depois fora dado como morto, e o oficial norte-americano que estava a organizar o corredor aéreo, tendo que lidar com problemas como a escassez de aeronaves e torres de comando, a atuar em áreas cegas. Ocorrem muitos desastres e nos lembramos de nossas dificuldades e tragédias recentes no ar. Mas o curioso mesmo, o que mais me espantou, foi o fato de que todos falavam alemão. Todos, sem exceção. Stálin, Truman, os generais no Pentágano, os generais norte-americanos que viviam em Berlim. Chocante. Será que os alemães não se dão conta do quão estranho que é pôr o ditador russo, com seu bigodão, e o Presidente dos EUA — muito bem caracterizado, aliás — a falar alemão, num filme que é distribuído internacionalmente? Bem, é claro, eu poderia ter optado, ao selecionar o idioma, pelo inglês. Aí, todos os alemães, russos e norte-americanos falariam inglês... Talvez esteja aí o X da questão. Obrigados a verem maciçamente filmes em inglês, os alemães, quando fazem seus filmes, colocam todos os personagens históricos, não importando sua nacionalidade, falando alemão. Deutsche uber alles, sempre. Não percebem ou não querem perceber que, geralmente, num filme de guerra em inglês, os oficiais alemães falam a língua de Goethe, os russos, a de Dostoievski, e os franceses, a de Balzac e Victor Hugo.
Antonioni, Bergman e Serrault
As prateleiras da casa de vídeo à qual fui, para pegar meu filme alemão, dedicadas aos filmes de Antonioni e Bergman, encontravam-se praticamente vazias. No balcão, uma senhora com um segundo caderno nas mãos, onde estava estampada uma matéria imensa sobre a morte do cineasta sueco, solicitava um dos filmes citados, que, infelizmente, já se encontrava alugado. As mortes e a mídia fazem esses milagres. Sempre abarrotadas de filmes que ninguém pega, ninguém vê, deixadas ao total abandono, repentinamente as prateleiras das obras dos dois grandes diretores de cinema foram as mais requisitadas. Tornou-se essencial conhecer Bergman, ver Antonioni. Não faz mal, não faz mal. É preciso um centenário de morte ou uma morte — e uma enxurrada concomitante de matérias — para que a curiosidade seja despertada. Acende-se o leviano desejo de consumo. Mesmo assim, algo fica. Alguém sairá ganhando. Não se assiste impunemente a Bergman nem a Antonioni. E isso a imprensa não conta.
Quanto a Michel Serrault, como a França o amava. Sua carreira como comediante e ator, extremamente rica e longa, no teatro e no cinema, ia muito além de seu papel em “A Gaiola das Loucas” e conquistou todos os corações franceses. Deve valer a pena ler seus livros, principalmente sua biografia, “Vous-avez dit Serrault?”. Pena que ainda não existe em português.