Terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Fritz
Utzeri
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E a GM não paga nada?
16/2/2007

Se o caso João Hélio tivesse ocorrido nos EUA, as exigências de quem quer sangue por sangue já estariam atendidas e dificilmente os criminosos (mesmo o “Dimenor”) escapariam da pena de morte. Mas, já que estamos falando de Estados Unidos, lá haveria outro tópico em debate, totalmente ignorado entre nós e a General Motors estaria na berlinda. Trata-se do cinto de segurança. Os norte-americanos iam querer saber por que o cinto não abriu. Alegarão os fabricantes que a situação de pânico do menino e da mãe, face ao assalto cruel, impediram a abertura do cinto e levaram à morte brutal do garoto.

Mas a pergunta é justamente essa. Abrir o cinto quando se chega em casa, tranqüilamente, não é problema. Mas em circunstâncias de perigo, após um acidente, durante um incêndio no veículo ou roubo, essa poderá ser (e certamente será, como foi) a diferença entre a vida e a morte. O carro dos pais do menino é um Corsa sedan 2006. Há três cintos no banco de trás desse carro. Os das portas são de três pontos e o do meio é abdominal. Consta que o menino estava preso por este cinto — logo, estava sentado no meio do banco traseiro. Cintos de segurança têm salvo a vida de milhões de pessoas, evitando que elas sejam projetadas do carro num caso de acidente.

No caso de João Hélio, o cinto permitiu que ele fosse arrastado e despedaçado fora do carro, apesar de estar usando (segundo o noticiário) o cinto abdominal do meio do banco. Onde o cinto ficou preso? No pé do menino? No ventre? Como foi possível que esse cinto pudesse ser tão comprido a ponto de permitir que João Hélio fosse arrastado fora do carro e ainda assim não abrir? Inquestionavelmente, há um problema de projeto aí e, se fosse na América do Norte, estudos já estariam sendo feitos para tentar entender o que aconteceu, o que deu errado e — podem ter certeza — a fábrica seria responsabilizada e, se constatada a insegurança do artefato, seria condenada a pagar uma indenização multimilionária e modificaria o desenho de seu produto.

Falar em dinheiro num momento destes é insensibilidade, dirão muitos, principalmente os hipócritas. É claro que dinheiro não substitui nem consola quem perdeu algo tão precioso como um filho amado aos 6 anos. Mas dinheiro fala alto do outro lado e obriga o fabricante do veículo a desenhar melhor seus equipamentos de segurança, gerando, em conseqüência, menos mortes e acidentes. No Brasil, para variar, nós não damos a menor bola para esses problemas. Quando criaram os motores para fechar os vidros dos automóveis, os norte-americanos descobriram — horrorizados — que algumas crianças, brincando, foram estranguladas por esses vidros. Processados, os fabricantes foram obrigados a criar um dispositivo que detém o vidro se ele encontrar qualquer obstáculo. Quantos carros no Brasil têm esse dispositivo?
Por que vocês acham que todas as geladeiras hoje fecham magneticamente? É que crianças ficaram presas e morreram em geladeiras nos EUA. Como elas tinham uma fechadura mecânica, era impossível abri-las por dentro. Acidentes e indenizações depois, os fabricantes chegaram à solução hoje adotada em todo o mundo.


A (mui brasileira) diarréia legiferante

E mais uma vez, neste País em que sobram leis e impunidade, legisla-se, em mais um acesso de diarréia legiferante, que não terá qualquer conseqüência enquanto não mudar praticamente tudo entre nós (pessoalmente, começo a achar isso impossível). A polícia brasileira é corrupta e ineficiente e, em média, só resolve 5% dos homicídios (!). Quem for “doutor” não vai em cana nem se assassinar covardemente (não é, Pimenta Neves?) e o Maluf (sublime cara-de-pau!) defende no Congresso — ao mesmo tempo — maior rigor fiscal (durma-se com um barulho desses!) e os contrabandistas e piratas (o DNA dele não mente, sempre prevalece).

Discutimos sempre o problema pelo fim, ou seja, criamos penas mais severas só para que não sejam aplicadas e fica todo mundo satisfeito. Maioridade não é uma língua de fogo que — magicamente — revela a essência do bem e do mal a quem completa 18 anos, no dia mesmo de seu aniversário. A responsabilidade penal deveria ser decidida pela Justiça e pela Ciência (infelizmente nos faltam as duas). Há crianças que têm perfeita noção do mal e do bem e adultos retardados que são crianças mentais. Cada caso é um caso. Se houver discernimento — não importa a idade — aplique-se a lei; se houver problema mental, como psicopatia, trate-se (embora eu jamais tenha visto paciente psiquiátrico curado); se não houver discernimento, reeduque-se.

O fato é que há algo errado com a sociedade, a começar pela família. Não há educação, ou melhor, há sim, a “educação” dos “Big brothers”, da sociedade cujo ideal para as meninas é ser modelo e cujos jovens serão capazes de matar por um iPod ou um tênis da moda. Como resistir às pulsões desse tipo de sociedade, quando vemos Maluf solto e cínico ditando regras e deputados mensaleiros com poder e “anistiados” pelo voto?

A verdade é que apodrecemos e não há mais jeito. No discurso todos enchem a boca para falar o óbvio, mas, me desculpem, marchamos a passos largos para uma sociedade do cada um por si e Deus contra todos. Perdão pelo pessimismo.

Fritz Utzeri é editor do jornal Montbläat, que circula pela internet em edição exclusiva
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