Carnaval, uma festa inesquecível


12/02/2010


Em todo o Brasil nesta sexta-feira, 12 de fevereiro, além do triste episódio da vergonhosa prisão do Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, não se fala em outra coisa a não ser sobre o carnaval. No Rio de Janeiro a abertura oficial dos festejos de Momo 2010 aconteceu no Palácio da Cidade, em cerimônia na qual o Prefeito Eduardo Paes entregou a chave da cidade para o Rei Momo Milton Júnior, que, acompanhado da Rainha Shayenne Cesário, é quem passa ao comando da programação da legião de foliões que tomam conta do Rio até a quarta-feira de cinzas, incluindo o sábado do Desfile das Campeãs.

Para acompanhar de perto toda essa movimentação, no Rio, em Salvador ou no Recife — cidades onde acontecem as comemorações carnavalescas mais badaladas do País —, os veículos de comunicação põem nas ruas batalhões de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, que se encarregam de registrar e mostrar para o planeta tudo o que acontece no mundo do samba; dos trios elétricos baianos, que em 2010 completam 60 anos; e do frevo e do maracatu pernambucanos.

Em conversas com jornalistas que sempre são escalados para a cobertura do carnaval, é possível que muitos digam que têm a impressão de que chega um momento em que a festa vira uma pauta que pouco oferece novidades.

Este é o caso do fotógrafo Robert do Jornal do Commercio de Recife. Disse ele que, depois de muitos anos acompanhando o carnaval pernambucano, já não consegue perceber algo de novo, que consiga lhe chamar a atenção. Ao mesmo tempo, o ABI Online conseguiu garimpar depoimentos de jornalistas que têm na memória uma cobertura carnavalesca inesquecível. Assim como o veterano Sérgio Cabral e os fotojornalistas Evandro Teixeira, do JB; e Guga Matos, colega de redação de Robert no JC de Recife, que relata nesta matéria um carnaval que lhe deu um prazer enorme em fotografar e marcou a sua trajetória profissional.

Emoção

No Rio de Janeiro, o carnaval passou a ser destaque no noticiário dos veículos de imprensa a partir do século XIX, com o surgimento nas redações dos veículos cariocas do cronista carnavalesco. Nos anos 30, sob o Governo de Getúlio Vargas, o carnaval, devido a sua popularidade, ganhou prestígio cultural e foi incorporado pelo Estado, provocando o que os pesquisadores avaliam como o período áureo da crônica carnavalesca. Neste grupo destacaram-se personagens como Jota Efegê, Mauro Almeida e Francisco Guimarães, conhecido como Vagalume.

Sergio Cabral

Nos anos 60, o jornalista e pesquisador Sergio Cabral — que considera que a imprensa é a responsável pelas melhores coisas que ocorreram com o carnaval — já se destacava como cronista carnavalesco, e tinha uma coluna de prestígio no Jornal do Brasil.

Cabral já perdeu a conta de quantos carnavais assistiu como repórter, cronista e comentarista de TV. Mas lembra da emoção que sentiu com um desfile da Mangueira, em 1966, que se apresentou com o enredo “Exaltação a Villa-Lobos”, em homenagem ao maestro. O jornalista diz que considera essa passagem especial:
— Foi um desfile da Mangueira, em 1966. eu era comentarista da TV Rio, juntamente com o Fernando Pamplona. Na platéia estava a viúva do maestro D. Arminda, que era conhecida como Mindinha. Em um momento do desfile a escola fez uma saudação à D. Mindinha que agradeceu chorando. Aquela imagem me deixou paralisado de tanta emoção, era a minha vez de comentar o desfile da escola e as palavras não saíam. Ficou aquele silêncio no ar. Eu não agüentei falar de tanta emoção que aquele momento me causou; de tão maravilhosa que foi aquela cena. 

Um carnaval “emocionante” na vida da jornalista Érika de Castro, atual chefe de Reportagem do jornal O Dia, foi em 2009 com toda a torcida pela recuperação do cantor Neguinho da Beija-Flor, líder dos intérpretes da escola de samba de Nilópolis (RJ), em quem foi diagnosticado um câncer.

Neguinho estava de casamento marcado e fez questão que a cerimônia na Passarela do Samba, antes do desfile da agremiação. Até o Presidente Lula compareceu, na qualidade de padrinho de casamento do casal:
— O Neguinho da Beija-Flor falou da doença e toda a imprensa se mobilizou torcendo pela sua recuperação, inclusive o Presidente Lula. O assunto foi o tema de destaque de todos os veículos, e o carnaval das escolas de samba acabou ficando em segundo plano.

Érika de Castro

Segundo Érika, foi uma cobertura estressante, porque os jornalistas, além do que acontecia em torno do Neguinho da Beija-Flor, tinham que acompanhar ao mesmo tempo os passos do Presidente da República:
— Tínhamos que estar na cola do Presidente, O Dia destacou um repórter especificamente só para observar todas as reações do Presidente Lula. Foi então que eu pude observar a mistura do profissionalismo com o sentimento que representa o carnaval. Vi muitos coleguinhas chorando na avenida, na cerimônia de casamento do Neguinho e da sua recuperação. Foi um carnaval impressionante.

Ayrton Senna

Evandro Teixeira

Senna e uma passista da Estácio

O premiado fotojornalista Evandro Teixeira conta que o episódio mais inusitado que viveu na cobertura do carnaval aconteceu nos desfiles das campeãs, em 1992, durante a passagem da escola de Samba Estácio de Sá, que inclusive ganhou o carnaval daquele ano, com um enredo que também falava da obra de Villa-Lobos:
— Acho que o carnaval sempre nos apresenta um ângulo diferente. Comigo aconteceu em 1992, no desfile das campeãs. Consegui registrar um momento inédito do Ayrton Senna, que era um cara comedido, se esbaldando, dançando com as cabrochas da escola, à frente da bateria da Estácio de Sá. Esta tinha sido a primeira vez que ele caiu no samba.

Evandro Teixeira disse que neste dia nem estava de plantão na avenida. Tinha ido assistir os desfiles no camarote de um amigo, quando percebeu que o Ayrton Senna, em um raro momento de euforia, tinha entrado na pista para dançar com as passistas:
— Dei sorte porque outros fotógrafos não viram. Nesse dia os jornais já trabalhavam com as equipes reduzidas. Mas para mim foi um dia ímpar de carnaval. Fotografei um ícone do automobilismo, que era uma referência nacional. E a minha foto foi publicada no mundo inteiro.

Surpresas

Maria Vitória Velez

O escopo das pautas dos veículos de comunicação no carnaval entra ano sai ano parece que são os mesmos. Então cabe aos repórteres garimparem as novidades com aquele olhar diferenciado de quem acumula experiência nesse tipo de cobertura.

O jornalista Marceu Vieira, do Globo, diz que em relação aos desfiles das escolas de samba o carnaval sempre pode se transformar em uma caixa de surpresas. No final dos anos 90, ele conta como ficou impressionado com uma apresentação da Beija-Flor, com um enredo em que o carnavalesco Joãosinho Trinta misturou luxo e miséria de maneira inusitada:
— Na Sapucaí, minha cobertura de carnaval inesquecível foi a de 1989, quando assisti, embasbacado, ao desfile da Beija-Flor de Joãosinho Trinta com seu enredo “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”. Aquilo foi sensacional. Mas no “quesito de costas para a avenida” foi o de 1994, quando Lilian Ramos exibiu a, digamos, “perseguida” ao lado do então Presidente Itamar.

Em 2005, a editora da Agência France Presse, Maria Vitória Vélez, foi pautada para produzir uma matéria sobre a representação do carnaval na cultura brasileira. Segundo ela, o que aconteceu de mais interessante no desempenho desta missão foi descobrir o que acontece dentro dos barracões das escolas de samba.

Vitória lembrou-se especificamente do ano de 2005, quando visitou o barracão da Imperatriz Leopoldinense. Naquele ano, o enredo da carnavalesca Rosa Magalhães era sobre o bicentenário do dinamarquês Hans Christien Andersen, autor de histórias infantis como ’O Soldadinho de Chumbo’ e ’O Patinho Feio’:
— O mais impressionante pra mim foi cobrir os barracões, ver toda a organização por trás daquela festa que parece tão espontânea; acompanhar o trabalho meticuloso dos artesãos, dos aderecistas, o orgulho estampado no rosto deles… E poder mostrar para leitores fora do País que para colocar aquele lindo espetáculo na avenida é preciso muito esforço e dedicação.

Bonecos de Olinda

Guga Matos

Boneco da Meia-Noite

Em Pernambuco, além de Recife, um dos carnavais mais badalados é o que acontece na cidade de Olinda, cuja tradição é o desfile dos bonecos gigantes. Em 2006, no seu primeiro ano como repórter-fotográfico no Jornal do Commercio pernambucano, o fotógrafo Guga Matos disse que fez a cobertura que até o momento foi a que mais marcou a sua carreira. Ele foi pautado para fazer um registro do Boneco da Meia-Noite, que sai às ruas exatamente a zero hora levando consigo uma multidão de foliões, ladeira acima, ladeira abaixo:
— Me mandaram registrar o Boneco da Meia-Noite e eu confesso que foi uma das melhores experiências que eu tive na cobertura do carnaval. Esse boneco é um dos mais populares, e quando chega a meia-noite sai pelas ladeiras de Olinda reverenciando os moradores mais antigos. Esse então é um dos momentos mais importantes dessa tradição. Essa pauta tem uma coisa mística e eu estava concentrado no trabalho e na integração do boneco com o público.

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