Bastidores – Rosa Nepomuceno


16/05/2008


A exuberante natureza do Jardim Botânico do Rio de Janeiro — onde foram aclimatadas as primeiras espécies de plantas que chegaram ao Brasil — cativa há 200 anos quem quer que atravesse os limites de seus portões, como a jornalista e escritora Rosa Nepomuceno, autora do recém-lançado “O jardim de D. João”. No livro, ela narra o desenvolvimento do maior horto do País, que é também um dos dez principais do mundo e sediará o Museu do Meio Ambiente, projeto pioneiro dedicado à preservação ambiental e à relação do homem com a natureza, previsto para ser inaugurado em junho.

A ligação visceral de Rosa com as coisas da terra e das letras tem origem familiar. Nascida em Botucatu, interior de São Paulo, ela morava como os pais, cinco irmãos e a madrinha na casa do avô jornalista.
— Tinha um quintal enorme, com muitas plantas e ervas, e uma rica biblioteca. Minha infância e adolescência foram marcadas pelo contato estreito com a natureza e a literatura. Com meu avô, aprendi a gostar de música, de comida, de vinho e de um bom causo, conforme a tradição de nossa origem caipira.

Aos 6 anos, a futura jornalista já se destacava nas aulas de Redação da escola e, no início da adolescência, conhecia a obra de grandes autores, como Freud e Machado de Assis. Aos 13, quando leu o primeiro livro de Jorge Amado, aconteceu a grande virada:
— Impressionada com seu talento e seu estilo, comecei a me corresponder com Jorge Amado e, assim que me formei no curso Normal, com 19 anos, fui à Bahia, conhecê-lo.

Na bagagem, o apoio do avô e a experiência de um mês de estágio na redação da Folha de S.Paulo. O plano inicial era ficar apenas dois meses, porém, fascinada pela cultura local, logo começou a procurar emprego:
— Meu avô me deu dinheiro para a viagem, mas era preciso trabalhar para ficar mais tempo. Como a minha vivência de trabalho se resumia a 30 dias, parei em frente a uma banca de jornal e peguei aleatoriamente uma revista: era a Fatos e Fotos. Procurei o Diretor da sucursal baiana, Flávio Costa, que me encaminhou ao Carlos Teixeira Gomes, do Jornal da Bahia, onde trabalhei dois anos. Neste período, visitei algumas vezes o Jorge Amado.


No Rio

Decidida a ficar mais perto da família, Rosa voltou para São Paulo, onde trabalhou no jornal Diário de Notícias e recebeu um prêmio por um conto publicado na revista Senhor. Um ano depois, em 1974, resolveu se mudar para o Rio:
— Não agüentei a aridez de São Paulo, acentuada ainda mais pelo regime de repressão. Eu usava cabelão, roupas compridas… a polícia me parava a toda hora. Além disso, sentia falta do mar, da proximidade com a natureza.

No Rio, Rosa se casou e teve a filha Maria, em 1976. Para retomar o contato com a natureza, comprou um sítio em Friburgo, se dedicou ao cultivo de ervas e abriu uma empresa de paisagismo. Agregou estas práticas ao jornalismo, atuando como colaboradora nas revistas Casa e Jardim, Vogue, Mulher e Casa & Decoração. Pouco depois, reforçou a equipe do Segundo Caderno do Globo:
— Fiquei lá quase três anos, uma época maravilhosa de convívio com grandes jornalistas como Evandro Carlos de Andrade, Sonia Biondo, que era minha chefe, Isa Pessoa, Isabel Mauad… Até ser convidada por Jaime Lerner para fazer assessoria de imprensa, ganhando o triplo do salário.

 Rosa exerceu a atividade entre as décadas de 80 e 90, trabalhando com Darcy Ribeiro, Cesar Maia — na primeira gestão municipal — e Leonel Katz — na Secretaria de Cultura do Governo Marcelo Alencar:
— Aos poucos, percebi que estava fora do meu caminho. Abandonei os empregos, terminei o segundo casamento, mudei a atividade física de bicicleta para tai chi chuan, recorri à medicina chinesa para tratar um problema renal, optei pela alimentação oriental e retomei o estudo sobre as plantas e especiarias, remetendo à minha infância.

Música

No fim dos anos 90, recebeu um convite do jornalista e crítico musical Tárik de Souza para escrever “Música caipira — da roça ao rodeio”:
— Todos os meus amigos sabem que, em razão das minhas raízes e do incentivo do meu avô, conheço bem o gênero musical, que gosto de cantar e tocar. Tárik, que é muito meu amigo, disse que só eu poderia fazer este projeto. Inicialmente, fiquei apreensiva, pois nunca tinha escrito um livro, mas aceitei a tarefa como um presente e acabei conquistando o Prêmio Clio de História.

Com a intensificação dos estudos e atividades vinculadas às especiarias, Rosa se tornou uma especialista do tema:
— Eu assinava uma coluna na Claudia Cozinha, plantava temperos, dava consultoria, palestras e entrevistas. A oportunidade de escrever um livro sobre o assunto surgiu com um convite da José Olimpio, em 2002. Um ano depois saía “O fabuloso mundo das especiarias”, hoje na quinta edição.

A partir deste trabalho, ela direcionou sua pesquisa para a origem dos condimentos e o universo histórico das trocas mercantis:
— Fui ao Pará estudar plantas e condimentos amazônicos e encontrei o caminho de volta a Botucatu. Parecia escutar os chamados de minha mãe: “Rosa Maria. vai buscar hortelã na horta, menina!” Em 2005, escrevi “O Brasil na rota das especiarias”.


Jardim 

 Rosa com sua neta Sofia

Admiradora do Jardim Botânico desde a chegada ao Rio, Rosa mora em frente a ele há 28 anos e o visita quase diariamente:
— Freqüento o lugar desde que engravidei da minha filha e atualmente é minha neta, Sofia, quem tem o privilégio de desfrutar a infância no jardim. Chova ou faça sol, é ali que esqueço as preocupações. E, da minha janela, acompanho as florações e sinto os cheiros, as nuances da terra.

Desta paixão, surgiu o convite do roteirista Thiago Arruda Marinho para um projeto que originou o recém-lançado “O jardim de D. João”, como parte das comemorações dos 200 anos da chegada da família real ao Brasil.:
— Tive o prazer de contar sua história, o milagre da sobrevivência do local, que, sem dúvida, se deve à mística de ele ter sido o jardim de D. João, dos príncipes e de Dona Leopoldina. Inicialmente destinado a virar uma fábrica de pólvora, o Jardim Botânico inaugurou em solo brasileiro o cultivo de cânfora, noz-moscada e lichia, entre outras plantas, além de um laboratório de produção de chá.

Entre os muitos novos projetos, a jornalista destaca uma coleção de cinco livros infantis, que será dedicada à neta:
— Quero contar minhas histórias com vovô e as experiências com as plantas desde a infância. Também vou continuar os estudos sobre condimentos e especiarias, pois ainda há muita coisa a ser descoberta, especialmente na Amazônia. Protegidos nas regiões mais fechadas estão sabores, remédios, perfumes e outros elementos por nós desconhecidos que devem ser catalogados, cultivados e preservados.