Associação Brasileira de Imprensa festeja posse da nova Diretoria


Por Igor Waltz e Cláudia Souza*

20/12/2014


Presidente da ABI discursa junto à diretoria da entidade na festa de posse (Crédito: DiPaola)

Presidente da ABI discursa junto à diretoria da entidade na festa de posse (Crédito: DiPaola)

Em solenidade realizada na última segunda-feira, 1º de dezembro, no Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio, a nova diretoria da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) comemorou a posse para o mandato até 2016. Em discurso para uma plateia de cerca de 400 pessoas, o novo Presidente Domingos Meirelles lembrou o protagonismo da ABI em diversos momentos da história política do País e defendeu a necessidade de novos rumos para que a entidade centenária resgate seu prestígio:

— Sinto-me honrado em assumir a presidência de uma das mais longevas entidades da sociedade civil no mesmo ano em que completo 50 anos de carreira como jornalista ainda em atividade. Para que a ABI retome sua posição privilegiada nos debates dos grandes temas da vida nacional, será preciso abandonarmos caminhos que levam aos mesmos lugares.

Visivelmente emocionado, Meirelles destacou que só através de uma ABI revigorada, fortalecida e voltada para o futuro será possível enfrentar os desafios que se avizinham:

— Precisamos deixar para trás, como roupa velha, o País perverso em que vivemos. Agradeço a todos que acreditaram na nossa proposta para revigorar a ABI.

Prestigiaram a cerimônia o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão; o jornalista Thomas Traumann, Ministro Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, representando a Presidenta Dilma Rousseff; a desembargadora Maria das Graças Cabral Viegas Paranhos, Presidente do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro (TRT/RJ); o prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier; o deputado Paulo Mello(PMDB), Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj);  o deputado federal Protógenes Queiroz(PCdoB-SP); o diplomata David Fogelson, adido de Imprensa do Consulado-Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. Associados e funcionários da ABI também participaram da festa, que contou ainda com a presença de profissionais de Comunicação e de representantes de movimentos da sociedade civil.

Entre os membros da Diretoria da ABI estiveram presentes Orpheu Santos Salles, Diretor Administrativo ; Jesus Chediak, Diretor de Cultura e Lazer ; Arcírio Gouvêa, Diretor de Assistência Social; Eduardo Cesário Ribeiro, Diretor de Jornalismo, e Ana Maria Costábile, Diretora Econômico-Financeira. A jornalista Joseti Marques, eleita para presidir o Conselho Deliberativo da entidade, também compareceu à cerimônia, conduzida pelo jornalista Reinaldo Leal.

Em seu discurso, o Governador Luiz Fernando Pezão sublinhou que a nova diretoria vai renovar a ABI e a democracia brasileira. “Domingos é um grande amigo, tenho um prazer imenso em vê-lo presidir esta instituição que prestou tantos serviços relevantes ao nosso País e ao nosso Estado. A ABI não poderia estar em melhores mãos. A entidade deve voltar a ser protagonista das boas lutas, das boas causas e do pioneirismo que sempre ocupou na História do Brasil.

O ministro Thomas Traumann exaltou a carreira de Domingos Meirelles como uma referência para o jornalismo brasileiro. “Domingos foi o responsável por inúmeras reportagens exemplares, um jornalismo que ultrapassa a declaração, que contextualiza o fato”, disse. E completou: “Hoje vemos aqui um encontro de uma instituição centenária na defesa da liberdade de expressão, não apenas dos jornalistas, mas de todos os cidadãos, sempre mantendo o espírito jovem de renovação”.

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Comemoração

Após os discursos, a plateia foi saudada com a esquete dos jornalistas e cartunistas Chico e Paulo Caruso; com a apresentação do ator e humorista Benvindo Siqueira; além de números musicais dos cantores Luis César, Nelsinho Laranjeiras, Dove e do Conjunto Época de Ouro. O casal de mestre -sala e porta-bandeira da Mangueira encerraram o espetáculo.

Conjunto Época de Ouro foi uma das atrações musicais (Crédito: DiPaola)

Conjunto Época de Ouro foi uma das atrações musicais (Crédito: DiPaola)

Depoimentos:

 Domingos Meirelles,  Presidente da ABI: 

“Senhoras e Senhores,

Nesta quadra da vida, em que eu completo 50 anos como repórter ainda em atividade, é mais do que um privilégio ser eleito por meus pares para exercer a Presidência da Associação Brasileira de Imprensa, a mais longeva guardiã das liberdades. Essa escolha, além de aumentar o peso da minha responsabilidade à frente de uma instituição com a importância do passado histórico da ABI, se reveste de uma significação especial. Essa escolha também expressa também um desejo de mudança. O mesmo sentimento que perpassa os mais diferentes segmentos da sociedade brasileira.

Vivemos hoje um momento de travessia. Um momento em que precisamos abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os mesmo caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares, como ensinava o poeta Fernando Pessoa. É um tempo de travessia, e se não ousarmos fazermos agora, teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos, dizia Pessoa. Travessias são sempre difíceis e extremamente dolorosas. Deixar para trás velhos hábitos, como se fossem “roupa velha”, exigem a extraordinária capacidade de renúncia e uma inquebrantável determinação para enfrentar os novos desafios.

Esses momentos de mudança, perpassados de emoção, onde ganha o olhar sempre voltado para frente, e não para os lados, são conhecidos como ritos de passagem. Todos nós experimentamos muitas travessias ao longo de nossas vidas, e cada um desses momentos teve seu próprio rito. Como o primeiro choro quando deixamos o útero materno. Os melhores festejos da despedida da adolescência para entrar na vida adulta, por exemplo, tiveram também o seu rito, como a celebração do casamento e o inesquecível trote de calouros, quando colocamos pela primeira vez o pé na universidade. Essas travessias na verdade são as mais visíveis, aquelas que conseguimos manter intocadas na nossa memória afetiva.

Mas existem também outras travessias que esperam por nós e que não conseguimos enxerga-las como os personagens que povoam páginas de “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Nós estamos também diante de uma difícil e tormentosa travessia. A Associação Brasileira de Imprensa, criada em 1908, para ser a Casa dos Jornalistas, precisa chegar rapidamente à outra margem do rio, sob a pena de ver sua imagem se esmaecer para sempre. A maior dificuldade não é o risco de afogamento, mas o percurso. A escolha da melhor rota, da melhor carta náutica que nos conduzirá em segurança, sem incidentes de trajeto, até a outra borda do Rio.

Mas quando se descortina esse caminho com clareza na bruma do tempo, podemos até comemorar antecipadamente o sucesso da chegada. A partir desse momento, nada mais poderá nos deter neste processo de transformação, por mais doloroso que ele seja. Temos hoje a obrigação e o dever histórico de resgatar o espaço político que sempre foi seu. A nova diretoria desta casa assume o compromisso de vivificar a entidade e reestabelecer o prestígio e a importância que ela teve no passado, recompondo sua imagem e evitando que volte a ser apenas a sombra de si mesma, desfazendo-se nas dobras do tempo.

Estamos todos convencidos que através de uma ABI revigorada, fortalecida, com sua sobra alongada e voltada para o futuro, será possível enfrentar os desafios que se avizinham, e lutar por uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna. Precisamos deixar logo para trás, como roupa velha, o País perverso em que vivemos.

Criada no início do século passado por um grupo de visionários, a ABI transformou-se com o passar dos anos no símbolo do Brasil moderno. Sua importância na vida do País transcendeu a agenda de uma agremiação voltada exclusivamente à defesa da liberdade de imprensa e do exercício profissional, como foi desenhada por seus fundadores. Há muito que a sua trajetória se confunde com o passado recente do País.

Nos Anos de Chumbo, a ABI foi a mais notável trincheira na luta contra o arbítrio e a opressão. Sua participação ao lado da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]e da CNBB [Confederação Nacional dos Bispos do Brasil] foi fundamental para o restabelecimento do Estado de Direito. O papel da ABI não foi apenas decisivo para o estabelecimento das garantias individuais e da consolidação do regime democrático, após a derrota do Golpe Militar de 1964. Ela sempre esteve presente na discussão das grandes questões nacionais. Seu envolvimento na campanha “O Petróleo é Nosso” foi determinante para a criação da Petrobras. As primeiras reuniões da memorável organização, cujo lema era “o petróleo é nosso” tiveram como berço o nono andar da Casa dos Jornalistas no início dos anos 1950.

A ABI sempre esteve na vanguarda do debate dos problemas que afligem o País. A Casa de Herbert Moses, Barbosa Lima Sobrinho, Prudente de Moraes e Maurício Azêdo foi uma das primeiras entidades da sociedade civil e liderar a Anistia e participar da campanha pelas Diretas Já. Ao lado da OAB dos anos 1990, teve também participação decisiva no impeachment do ex-Presidente Fernando Collor de Melo, que ajudou a mudar os rumos do País.

O poeta gaúcho Mario Quintana, filho do Alegrete (RS), como nosso querido Jesus Antunes, afirmou certa vez que o mais voraz dos animais domésticos é o relógio de parede. “Eu conheço um”, dizia ele, “que já devorou três gerações da minha família”. O relógio a que se refere o poeta é na verdade o tempo, a passagem da vida, que o arquiteto Oscar Niemeyer dizia ter a mesma duração de um sopro.

A partir de hoje, a ABI volta a ser protagonista do seu próprio tempo. Vai deixar de ter um envolvimento meramente protocolar ou andar a reboque de outras grandes instituições, na discussão de soluções dos grandes impasses na vida brasileira. A ABI vai restabelecer alianças com antigos e novos parceiros para criar um fórum permanente de políticas públicas, onde serão debatidos as grandes questões nacionais com a participação das entidades mais expressivas da sociedade civil. Vamos repensar o País em que vivemos. Vamos procurar entender porque abdicamos de ter um projeto de nação. Por que não temos mais projetos comuns? Por que não temos mais projetos coletivos? Porque deixamos esgarçar os laços de pertencimento que sempre uniam tanto na alegria quanto na dor.

O Brasil e a ABI não podem mais perder tempo sob o risco de serem deixados para trás pelo bonde da História. A partir de agora, a Casa dos Jornalistas está aberta a todo tipo de parcerias em busca de alternativas que ajudem a realizar esse momento de travessia. Vamos repensar juntos a sociedade brasileira. Vamos discutir o verdadeiro significado da liberdade de imprensa e o papel das novas mídias. Vamos defender a democratização do conhecimento tão caro aos anarquistas, que viam nele uma ferramenta para inclusão social.

Os libertários do começo do século XX diziam que o conhecimento não poderia ser privilégio das classes dominantes. Sustentavam que o saber deveria trafegar de forma vertical pelos diferentes estratos sociais. O trabalhador braçal, segundo eles, tinha o direito de ser culto, inspirados no mandamento de que o conhecimento liberta. Entendiam que o único e verdadeiro processo capaz de transformar o homem comum em cidadão era através do compartilhamento do saber, até hoje privilégio das elites.

Nos anos 1920 e 1930, muitos operários falavam francês, como o negro Minervino de Oliveira, um orador brilhante que trabalhava como marmorista debruçado sobre os túmulos do Cemitério do Caju. Minervino infelizmente não faz parte da História oficial, mas participou da eleição presidencial de 1930, como representante do proletariado. A classe trabalhadora na época considerava Vargas e Júlio Prestes como “farinha do mesmo saco”, porque os dois defendiam apenas interesses de setores da oligarquia dominante, como sustentavam as lideranças do proletariado na época.

Minervino, Vargas e Júlio Prestes fizeram suas travessias e enfrentaram ritos de passagem, cada qual a seu modo e de acordo com os sonhos que representavam. O compositor e guitarrista jamaicano Bob Marley dizia que muitas vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas. O tempo passa, e descobrimos de repente que grandes mesmo eram nossos sonhos, e que as pessoas eram pequenas demais para torna-los reais. Assim caminha o mundo, onde não são poucos os exemplos da miséria da condição humana.

Eu gostaria de agradecer a todas as autoridades aqui presentes, aos amigos por terem prestigiado esse cerimônia com a sua presença, e os companheiros de viagem que aceitaram o desafio dessa travessia a bordo da chapa Vladmir Herzog. “Valeu a pena?”, perguntou certa vez Fernando Pessoa, para logo responder em seguida no mesmo verso: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

Luiz Fernando Pezão. Governador do Estado do Rio de Janeiro. – “O Domingos é um grande amigo, tenho um prazer imenso em vê-lo presidir essa instituição que prestou tantos serviços relevantes ao nosso país e ao nosso estado. A ABI não poderia estar em melhores mãos. Acredito que ele vá renovar cada vez mais essa associação e a democracia, e sua própria eleição demonstra muito a vitória da democracia. A ABI deve voltar a ser protagonista das boas lutas, das boas causas, do pioneirismo que sempre teve na história do Brasil.

Ministro Thomas Traumann, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), representando a Presidente Dilma Rousseff. – Aqui reunimos duas referências. A primeira é a ABI, com mais de cem anos de papel fundamental que em quase todos os grandes casos em que o país sofreu com a censura, com a repressão, a ABI estava lutando pelo lado certo, na Ditadura, na luta pela Petrobrás, uma instituição com uma história muito clara. Do outro você tem um profissional que simboliza muito esse princípio, uma pessoa certa na hora correta, que sempre foi repórter, uma pessoa muito simbólica, que tem a preocupação de apurar, de checar, de ser curioso, de querer chegar à verdade. Conheço Domingos não só como repórter, mas como escritor, eu li o livro dele sobre Prestes, sobre a Revolução de 30. Tem a atitude de checar até chegar à informação correta. E não é só a informação fácil, só a declaração que você vê superficialmente. É uma pessoa que vai levar a ABI a ser do tamanho que ela deve ser, uma referência. A pessoa perfeita para a hora certa. Em nome da presidenta da República gostaria de falar sobre desse encontro com uma instituição centenária, que tem uma história de posições claras.O Domingos ultrapassa o detalhe, ele aprofunda o fato. Um sujeito que em 50 anos escreveu livros e reportagens.“Hoje o jornalismo chega a sua essência, que é a missão de transformar a sociedade”.

Desembargador Siro Darlan. “A ABI é instituição basilar da democracia. É onde a imprensa brasileira respirou a liberdade de comunicação e expressão e Domingos Meirelles construiu toda a sua vida profissional como um jornalista independente, criativo e é uma esperança muito grande que ele venha a elevar a ABI no seu lugar de destaque na história do jornalismo brasileiro. Um dos pilares da democracia é a liberdade de imprensa e a ABI, assim como a OAB, sempre foram importantíssimas para a liberdade e a democracia, de forma que a ova gestão é uma expectativa muito positiva. A ABI deve ocupar esse espaço precioso que foi prejudicado pela existência de um monopólio na imprensa brasileira e os jornalistas passaram a ter categorias distintas: aqueles que servem ao monopólio e os que efetivamente são os jornalistas com liberdade de profissão Eu me sinto prestigiado por estar aqui, o fato de ter sido inclusive convidado para ser parte de diretoria é uma honra muito grande na condição de magistrado e de jornalista. Pretendo contribuir para soerguer essa instituição que está passando por uma crise, assim como a Justiça”.

Thiers Montebello, Presidente do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro. “Apesar de não ser jornalista eu tenho respeito e admiração pela ABI e pelo Domingos, então sou convidado a essa posse como cidadão. Tenho apreço pela instituição  e pela história que ela tem, pela luta a favor da democracia, por tudo que ela conseguiu pelo Brasil. A ABI representa a força da imprensa brasileira”.

Nelson Bornier, Prefeito de Nova Iguaçu. “Acho que o Domingos é uma das maiores expressões no jornalismo brasileiro. Assumiu a direção de uma associação que representa a classe. É a maior representatividade que a categoria poderia ter. Indiscutivelmente, dos nomes que aqui já passaram, ele é um dos mais expressivos nesse momento para a imprensa. Isso vai significar uma transformação, sem sombras de dúvida, por tudo o que a imprensa representa hoje no Brasil. Temos aqui presente hoje nessa posse tão importante um representante de destaque para a instituição e a categoria”.

Eliel Brum, diretor da Legião da Boa vontade (LBV) no Rio de Janeiro. A primeira reunião d LBV aconteceu nas instalações da ABI. Domingos Meirelles é um grande amigo do jornalista Paiva Netto, e pediu que viesse prestigiar nesse dia de hoje a sua posse e nosso desejo é que a ABI seja um objeto de transformação, uma instituição que preza pela liberdade de imprensa no Brasil. Esse é um momento em que a gente precisa no país de instituições sérias, o Brasil passa por transformações e certamente uma mudança de rumos da ABI é fundamental para resgatar a sociedade, aquilo que nós almejamos, um país melhor para nossos jovens. A mesma luta da LBV, que luta por uma humanidade mais feliz e sempre com liberdade de imprensa para que nossos jovens possam crescer num país melhor. O Domingos fará certamente uma excelente gestão à frente da ABI.

 

*Com a colaboração de Cláudia Sanches. 

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