20 de agosto de 2022


As bruxas do oriente


28/10/2021


Por Norma Couri, Diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade

A angústia do goleiro diante do pênalti foi compartilhada por todo mundo depois que Wim Wenders tirou o foco da bola e do placar para iluminar o medo daquela figura solitária, o goleiro, ao filmar a obra de Peter Handke em 1972. Seis anos depois Julien Faraut nascia na França e este cineasta especializado em documentários na área do esporte trouxe uma das boas surpresas da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  As Bruxas do Oriente mescla desenhos de animação com imagens de arquivo para contar a dor e a glória, a vitória e o fracasso, o desprezo e admiração, a juventude e a velhice de quatro jogadoras de vôlei japonesas junto com todo preconceito enfrentado pelas mulheres.

Quando o filme começa não dá para imaginar o que virá. São quatro senhoras tomando chá e comendo arroz com castanhas, comentando que não entendiam por que eram chamadas de bruxas se não tinham nariz adunco nem estavam montadas em vassouras. Lembram dos apelidos nem sempre elogiosos, Cavalo, Inquieta, Branquela, mas eram mesmo identificadas como Bruxa 1, Bruxa 2, Bruxa 3, Bruxa 4… Comentam o constrangimento de alguns técnicos em aceitar tratar com mulheres mas, principalmente, do treinamento desumano a que foram submetidas.

Elas trabalhavam nas fábricas de têxtil bem cedo, tinham meia hora de almoço, e das 13h até 2 ou 3h da manhã eram submetidas a treinos exaustivos para recomeçar tudo outra vez às 7 da manhã. Só eram substituídas quando emplacavam 10 acertos e, para cada erro, perdiam um ponto, precisavam se esforçar mais até completar 10 pontos, madrugada a dentro. Lanches, só no intervalo, e jantar, depois do treino, mesmo que fosse às 3 da manhã. Tinham de esconder a menstruação do implacável treinador Hirofumi Daimatsu que não admitia dispensas, competir a qualquer custo. Daimatsu hoje seria “cancelado”, ele insultava e batia nas mulheres.

O ano era 1950 e dez anos depois esta equipe viria para o Rio de Janeiro onde amargou a derrota para as  russas no campeonato mundial. As russas ocupavam a linha de frente da Cortina de Ferro e as japonesas, no máximo com 1m63 de altura, comentam que tiveram de engolir o fracasso e seguir para Romenia, Bulgária, Tchecoeslovaquia passando três meses na Europa competindo com “adversárias altíssimas” — mas assim mesmo vencendo 22 campeonatos seguidos. Mesmo vitoriosas continuavam sendo “substitutas”. A meta para chegar a titular estava sempre mais à frente no implacável esquema de excelência do Japão.

As imagens de arquivo mostram o cancelamento da 12ª Olimpíada em 1940, como foram as de 1916 e seriam as de 1944, todas por causa da guerra. A sede dos jogos em 1940 seria o Japão – que no ano seguinte lançaria o ataque contra a base naval americana de Pearl Harbour, e cinco anos depois viraria terra arrasada com o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki.  Para compensar, Tokyo sediou as Olimpíadas em 1964 e as Bruxas receberam as maiores cobranças “para mostrar uma nova imagem do Japão ao mundo”. Se perdessem, teriam de ir embora do país e já consideravam a Romenia. O documentário reproduz trechos das Olimpíadas de Tóquio, quem abriu, carregando a tocha, foi um estudante de 19 anos, Yoshinori Sakai, nascido no dia em que a bomba de Hiroshima foi lançada, 6 de agosto de 1945, a trança política sempre presente nos esportes. Por exemplo, a África do Sul foi proibida de participar por causa do apartheid, da mesma forma que por sua atuação na guerra o próprio Japão, junto com a Alemanha, não foi convidado a participar quando os jogos foram retomados em 1948 em Londres. Das Olimpíadas de 1964 no Japão o Brasil participou seis meses após o golpe, o regime militar queria criar a ilusão de normalidade no país.

No documentário a conversa das Bruxas, nem gloriosas nem ricas, nem alegres nem tristes, simplesmente mulheres relembrando suas histórias, é toda entrecortada pelo emocionante vídeo do campeonato de 1964. Pela primeira vez uma Olimpíada foi transmitida ao vivo graças ao satélite americano Syncom 3. As Bruxas não só não foram obrigadas a se mudar do país como levaram a medalha de ouro na primeira vez em que o vôlei – junto com o boxe – integrou as 25 modalidades disputadas. As Bruxas estavam entre as 678 mulheres entre 5.151 atletas, 4.473 homens. Até 1966, quando as Bruxas finalmente perderam um campeonato, já haviam colecionado 258 vitórias para o Japão.

O documentário é imperdível e está na plataforma da Mostra (45.mostra.org) que traz 89 filmes dirigidos por mulheres e sobre mulheres. Como Lua Azul, romeno, dirigido por Alina Grigori, 37 anos, sobre o dilema de Irina entre estudar em Bucareste ou Londres e ajudar a família a tocar os negócios do clã. Ou Um Forte Clarão, da diretora espanhola de 39 anos, Ainhoa Rodriguez, com oito prêmios nos festivais internacionais, sobre as sombrias memórias de três mulheres não atrizes, nativas de Badajoz, lembrando casamentos e um passado opressivos.

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