14 de agosto de 2022


Lóris Baena é personagem vivo da história da ABI


20/04/2020


Lóris Baena

Associado mais antigo da ABI, filiado em 1955, o jornalista esportivo Lóris Baena, de 97 anos, membro do Conselho Deliberativo da ABI, abre a série de entrevistas Pratas da Casa, iniciativa da Diretoria de Assistência Social, com apoio das Diretorias de Cultura e Jornalismo, para valorizar importantes personagens que ajudam a construir a história da “Casa do Jornalista”.

Em entrevista exclusiva à jornalista Ana Helena Tavares, de 35 anos, a mais jovem conselheira da ABI, Baena conta um pouco da sua trajetória profissional e relata sua experiência nas gestões de “dois grandes timoneiros” da ABI: os ex-presidentes Herbert Moses (1931-1964) – responsável pela construção do prédio da entidade – e Barbosa Lima Sobrinho (1978-2000), além de dar sugestões para o futuro da entidade.

Lóris Baena: dos anos 50 aos tempos atuais, uma vida dedicada à ABI

Por Ana Helena Tavares*

Ele conhece, como poucos, os corredores do tradicional prédio da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio. Acompanhou de perto o governo de Getúlio Vargas, quando a capital federal também era no Rio de Janeiro. Aos 97 anos e há 65 associado à ABI, o jornalista esportivo Lóris Baena Cunha tem quase uma dezena de livros publicados, alguns sobre história do futebol, outros de poesia. Como ele analisa o passado e o presente da ABI? Que cenários desenha para que se garanta o futuro da associação que viu crescer? Foram estas e outras as questões levantadas nesta entrevista, feita em 22 de agosto de 2019 na ABI.

Baena hoje integra os quadros do Conselho Deliberativo da entidade, mas já exerceu inúmeras funções na ‘Casa do Jornalista’. Teve, por exemplo, várias passagens pelo Conselho Fiscal e participou de diversas comissões eleitorais internas. É uma relação antiga. Em 1947, aos 25 anos, quando trabalhava no jornal Folha Carioca, ele cogitou entrar de sócio da entidade, mas acabou precisando se mudar para São Paulo.

Em 1955, voltou ao Rio como representante da Rádio Clube do Pará, sua terra natal. “Fui foca nessa rádio. Todo mundo no Jornalismo passa por essa fase de foca”,  comenta. Nessa época, o jornalista Edgar Proença, também da Rádio Clube, apresentou Baena a Herbert Moses, então presidente da ABI. Moses convidou Baena a se associar e lhe ofereceu trabalho na ABI, para fazer a cobertura das atividades do antigo ambulatório médico da entidade.

“Você é cronista esportivo, trabalha com o microfone na mão, tem sempre que fazer muitas perguntas, então, deve entrevistar bem. Quero que você trabalhe aqui entrevistando os médicos do sexto andar”, disse Moses ao jovem Baena. A missão foi aceita. “O ideal do Dr. Moses era fazer do sexto andar algo diferenciado dos outros, ele queria fazer uma clínica com médicos de todas as especialidades. E fez”, explica.

‘Com Herbert Moses, jornalistas passaram a ter tratamento diferente’

Baena entrou para a ABI um ano depois do suicídio de Getúlio Vargas, mas faz questão de lembrar o papel exercido pelo emblemático ex-presidente com relação à imprensa em geral e à ABI em particular. “Vargas tinha tendências nazistas. Era contra a imprensa, não gostava de jornalistas, mandava empastelar redações e a polícia especial dele prendia jornalistas no meio da rua”, recorda-se.

Segundo ele, na década de 1930, “Herbert Moses foi ao encontro de Vargas no Catete e fez amizade com ele”. Moses foi muito criticado por isso, mas, na avaliação de Baena, conseguiu ser um “elo de ligação (sic) entre os jornalistas e Vargas”. “Os jornalistas passaram a ter um tratamento diferente”, acredita.

Vargas, de fato, ajudou Herbert Moses na construção da atual sede da ABI, entre 1936 e 1939. O terreno foi doado por Pedro Ernesto, então prefeito da capital federal, que era o Rio de Janeiro. Não havia, porém, verba para construir nada ali, nem mesmo a escritura do terreno. “Estava tudo na conversa. Até que o Getúlio Vargas convocou Pedro Ernesto a ir ao Catete e eles acertaram a escritura definitiva”, conta Baena.

Ainda assim, faltava dinheiro para a construção. Mais uma vez, Vargas interveio, agora fazendo uma alta doação em dinheiro, a qual possibilitou a construção do prédio. Baena assinala que, além do apoio político e financeiro, Vargas acompanhou a obra. “Ele vinha olhar o prédio sendo erguido”.

Barbosa Lima Sobrinho: ‘uma bandeira nacional do Jornalismo’

Herbert Moses era chamado por Getúlio de “gênio” e, para Lóris Baena, foi “um dos dois grandes timoneiros da ABI”. O outro foi Barbosa Lima Sobrinho. “Uma bandeira nacional do Jornalismo. Era um orgulho para a ABI tê-lo como presidente”, define Baena que, como cronista esportivo, tinha um motivo especial para admirar o pernambucano Barbosa Lima.

“Em Pernambuco, muitos clubes suburbanos pediam auxílio para comprar camisas, chuteiras, etc… E ele atendia a todos. Tanto que acabou virando adepto do futebol, chegando a ser dirigente”, lembra. Barbosa foi presidente, por um mandato, do Clube Náutico Capibaribe.

Mas havia ainda outro motivo para a admiração: a generosidade. Baena costumava levar poemas de sua autoria para a ABI e Barbosa Lima os lia e comentava. Certa vez, levou uns 70 poemas que estão em seu livro “Sonhos de amor”. Barbosa comentou: “Tem umas poesias bonitinhas, mas queria que você escrevesse uma para o meu clube”. Ele referia-se ao seu clube no Rio de Janeiro, o Fluminense, e incentivou Baena a que fizesse também poemas para os outros clubes cariocas. Assim foi feito. Os poemas clubísticos estão no livro “Temas da vida”.

Para garantir o futuro da ABI ‘é preciso trazer sócios’

Com a propriedade de quem conhece bastante os temas da ABI e perguntado sobre o que a entidade precisa para continuar existindo e voltar aos tempos áureos, ele não teve dúvidas: “Precisa trazer sócios. Ninguém paga nada sem receber nada”, dispara.

Lóris Baena e esposa

Mas como? Baena dá algumas sugestões para criar novos atrativos para a casa. Uma dela seria “ressuscitar’ o sexto andar, que funcionava como ambulatório médico nas décadas de 1950 a 1980. “Colocaria ali, pelo menos, uns 10 médicos de várias especialidades. Já era alguma coisa para dar ao sócio”, opina. Ele também sugere reabilitar o 11º andar, ocupado pela Diretoria Cultural, onde ficam as mesas de sinuca. E lembra que no local já funcionou uma cantina bastante movimentada.

O mais longevo associado da ABI também sugere uma série de visitas às redações, mesmo as comunitárias, para sensibilizar os jornalistas e captar mais sócios. Para ele, é preciso ainda reforçar a Diretoria de Jornalismo com atividades de assessoria de imprensa, buscando a publicação de temas de interesse da entidade em veículos como rádios, jornais, revistas, internet e TVs, inclusive nos canais de emissoras a cabo. “Temos que voltar a dar vida para a ABI”, finaliza.


*Ana Helena Tavares é jornalista, membro do Conselho Deliberativo e das Comissões de Cultura e de Assistência Social da ABI. É criadora do site de jornalismo político “Quem tem medo da democracia?” (www.quemtemmedodademocracia.com). Tem livros-reportagem publicados no Brasil e no exterior, entre os quais “O problema é ter medo do medo – O que o medo da ditadura tem a dizer à democracia” (Revan, 2016) e “Um bispo contra todas as cercas – A vida e as causas de Pedro Casaldá liga&quo t; (Vozes, 2019). E-mail: anahelenart@hotmail.com

NOTA DA REDAÇÃO: Jornalistas voluntários interessados em colaborar com o espaço ‘Pratas da Casa’, para entrevistar, redigir e editar as matérias, bem como fotografar e filmar os personagens vivos da história da ABI, são m uito bem vindos. Informações pelo email: rosaynemacedo@abi.org.br.

 

 


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