Banner 2
Banner 3
Banner 1

Amelinha Teles: uma vida contra o esquecimento


15/09/2026


Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, foi muito mais do que uma sobrevivente da ditadura militar. Foi uma mulher que transformou a própria dor em instrumento de luta. Presa em dezembro de 1972, durante a ditadura, foi levada à Operação Bandeirantes (Oban), em São Paulo, onde sofreu brutais sessões de tortura. Seu marido, César Teles, também foi preso e torturado. Seus filhos, ainda crianças, foram levados para o local e obrigados a presenciar a violência cometida contra os pais.

Amelinha carregou para o resto da vida as marcas daquela violência. Mas se recusou a permitir que a ditadura também lhe roubasse a memória.

Ao contrário: fez da memória uma arma contra o esquecimento.

Jornalista, escritora, educadora popular e militante feminista, dedicou décadas à defesa dos direitos humanos e à reconstrução da história dos perseguidos políticos. Atuou na Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e participou dos esforços de investigação e esclarecimento dos crimes cometidos durante a ditadura. Sua trajetória também esteve profundamente ligada à luta das mulheres e à construção do movimento feminista brasileiro.

Sua família teve papel decisivo em uma das mais importantes ações judiciais relacionadas à ditadura brasileira. A ação movida pelos Teles contribuiu para que Carlos Alberto Brilhante Ustra fosse reconhecido judicialmente como torturador, em uma decisão pioneira da Justiça brasileira.

Amelinha nunca aceitou o silêncio como destino.

Sua voz esteve presente em depoimentos à Comissão da Verdade, em livros, entrevistas, debates, movimentos sociais e na luta cotidiana pela preservação da memória brasileira. Em 2026, ainda participava de encontros públicos para falar sobre a ditadura, o feminismo e a necessidade de registrar a história para que as novas gerações pudessem conhecê-la.

Há uma frase de Amelinha que resume o sentido de sua trajetória: “A escrita é um ato revolucionário.” Para ela, escrever era uma forma de enfrentar o apagamento da história e impedir que a violência fosse esquecida.

É por isso que sua morte não pode ser compreendida apenas como a despedida de uma mulher que sofreu a violência do Estado.

É a despedida de uma testemunha da História.

De uma mulher que viu de perto os porões da ditadura e decidiu passar o resto da vida contando o que viu.

De uma militante que transformou sofrimento em resistência.

De uma feminista que ajudou a abrir caminhos para tantas outras mulheres.

De uma brasileira que compreendeu que democracia sem memória é uma democracia permanentemente ameaçada.

Amelinha parte, mas deixa uma tarefa para todos nós: não esquecer.

Não esquecer os presos políticos.

Não esquecer os torturados.

Não esquecer os mortos e desaparecidos.

Não esquecer as famílias destruídas pela repressão.

Não esquecer que a democracia foi conquistada também com a coragem de mulheres como Amelinha Teles.

Sua vida foi uma longa batalha contra o silêncio.

E a melhor homenagem a ela será continuar falando.

Amelinha Teles, presente!

Hoje e sempre.

Seu corpo será velado na quarta-feira (16), das 11h00 às 16h00, na Reitoria da Unifesp, Rua Sena Madureira, 1500, em São Paulo.

Amelinha por ela mesma 

Sou  Maria Amélia de Almeida Teles, mais conhecida como Amelinha Teles. Sou feminista e militante política. Trabalhei em diversos jornais. Na clandestinidade, militei na imprensa, no jornal A Classe Operária. Por isso fui presa, torturada e estuprada no DOI-Codi de São Paulo, cujo nome inicial era Operação Bandeirante (Oban), um centro de extermínio de militantes políticos.

Seu comandante, o então major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932–2015), foi o mandante e executor de torturas contra a minha família: meu companheiro, César Augusto Teles (1944–2015) e minha irmã, Criméia Alice Schmidt de Almeida, à época com 25 anos de idade, grávida de oito meses. Minhas crianças foram sequestradas e levadas para aquele centro de torturas. Janaína, com cinco anos de idade e Edson Luís, com 4 anos. Foi também sequestrado junto conosco o dirigente comunista e amigo Carlos Nicolau Danieli (1929–1972), este assassinado brutalmente sob torturas no DOI-Codi.

Minhas crianças foram obrigadas a assistir as torturas infligidas a mim e ao pai, como forma de nos pressionar e pressionar sua tia a dar informações às autoridades.

Minhas crianças ficaram por um tempo no DOI-Codi e depois foram para casa de um delegado de polícia.

Sou conhecida por denunciar as torturas, os assassinatos e os desaparecimentos de militantes políticos durante a ditadura. Em 2005, minha família, conhecida como Família Teles entrou com ação judicial para que o Estado brasileiro declarasse torturador o então coronel reformado do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra. A ação judicial foi vitoriosa. Ganhamos na primeira instância em 2008, na segunda instância, em 2012 e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2014. Com isso, o Coronel Ustra é, até hoje, o único torturador declarado e reconhecido como tal pelo Estado brasileiro.

Fui uma das 52 mulheres brasileiras indicadas para o Prêmio Nobel da Paz, quando houve uma iniciativa feminista mundial de uma proposta coletiva de 1000 mulheres pela paz, em 2005.

Em 2023, recebi o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Eu nasci em Contagem, Minas Gerais, em 6 de outubro de 1944. Morei em diversas outras cidades brasileiras e vivo em São Paulo desde que saí da prisão em 1973. Aqui, recebi o título de cidadã paulistana em 2007 da Câmara Municipal de São Paulo.

Eu desenvolvo um trabalho de militância feminista há mais de 50 anos. Sou uma das fundadoras da União de Mulheres de São Paulo, uma das coordenadoras do Projeto Promotoras Legais Populares (PLPs), que é um projeto de educação popular feminista em direitos, sou integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e fui assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo – Rubens Paiva.

Sou escritora e autora de diversos livros sobre feminismo e direitos humanos das mulheres, tais como Breve História do Feminismo no Brasil, Editora Brasiliense, 1993; O que é Violência contra a Mulher, em coautoria com Monica de Melo, Brasiliense, 2002; O que são os Direitos Humanos das Mulheres?, Brasiliense, 2006; Os Cursos de Direito sob a Perspectiva de Gênero, Fabris, 2006; Da Guerrilha à Imprensa Feminista, em co-autoria com Rosalina Santa Cruz Leite, Intermeios, 2013; Breve História do Feminismo e outros ensaios, Alameda, 2017; co-organizadora, com Flávio Santiago e Ana Lúcia Goulart de Faria, de Por que a creche é uma luta das mulheres?, Editora Pedro e João, 2018; e Feminismos, Ações e Histórias de Mulheres, Alameda e Ema Livros, 2023.

Continuo firme na luta na defesa da liberdade, da democracia, da memória, verdade e justiça.

Maria Amélia de Almeida Teles

Em Contos da Cela Três – Memórias de uma presa política na ditadura.