A SAGA DA Petrobrás, DA REVOLUÇÃO DE 30 AOS DIAS DO PRÉ-SAL – Capítulo 14



Cap. 14

“VAI ACONTECER DE NOVO”, DIZ GETÚLIO

 

Lutero não podia esquecer. No início de 1945, ele servia como oficial médico da Força Aérea Brasileira, a FAB, no teatro de operações dos Aliados na Itália, na Segunda Guerra Mundial. Em pouco tempo, suas façanhas cirúrgicas tornaram-se lendárias e ele começou a ser chamado para operar oficiais e soldados das forças norte-americanas, inglesas e de outros países aliados, na frente de operações da Itália.

Nos meses finais da guerra, no início de 1945, antes mesmo do colapso e da capitulação da Alemanha nazista, quando as tropas alemãs eram definitivamente expulsas da Itália e as  forças brasileiras de terra e ar, a FEB e a FAB, deram por encerrada sua participação nas operações na Península Italiana,  Lutero foi convidado a visitar os Estados Unidos, onde queriam agradecer-lhe pelo que fizera, na condição de médico, um dos melhores cirurgiões das forças aliadas, pelos  oficiais e soldados norte-americanos feridos em combate na frente italiana.

Recebido e homenageado como grande médico, é claro que Lutero foi ouvido também como o filho do Presidente do Brasil. Num almoço em Wall Street, no último dia da viagem, pediram que ele falasse dos planos de seu pai para o futuro do país.

Lutero contou sobre os projetos de Getúlio desde  a Revolução de 1930, em favor do desenvolvimento e da emancipação econômica do Brasil, projetos acelerados, nos anos da guerra e em virtude das demandas que ela impunha, pela implantação da grande siderurgia (a usina de Volta Redonda estava em fase final de construção), pela retomada das reservas de minério de ferro antes alienadas a interesses estrangeiros (a Companhia Vale do Rio Doce fora constituída com apoio do Presidente Roosevelt) e pelo primeiro projeto brasileiro sob controle nacional de uma grande usina hidrelétrica (o projeto de Paulo Afonso, no rio São Francisco). Falou também dos planos políticos do pai – e do projeto de desmonte do Estado Novo, já em pleno andamento.

À saída, o anfitrião insistiu em levá-lo até o elevador – era um daqueles enormes arranha-céus no distrito financeiro de Manhattan. No caminho, longe dos olhos e ouvidos dos outros convidados, interrompeu o percurso para dizer:

– Este almoço foi para o médico Lutero Vargas, não para o filho do Presidente do Brasil. Mas sua exposição sobre o Brasil me deixa à vontade para pedir que o senhor comunique a seu pai, o Presidente, o que desgraçadamente vai acontecer nos Estados Unidos.

– O Presidente Roosevelt está gravemente doente e desenganado, e não tem muito tempo de vida. Roosevelt tem grande admiração pelo Presidente Vargas e a maior gratidão pela ajuda do Brasil na guerra.

– A maioria dos grandes banqueiros e industriais americanos não gosta do Presidente Vargas. O pretexto é que ele chefia um governo ditatorial, mas a verdadeira razão é que o programa econômico do governo brasileiro prejudica os interesses de grandes grupos americanos.

– Roosevelt compreende que o Brasil tem o direito de se desenvolver, e que isso é bom para os Estados Unidos. Por isso apoiou a construção de Volta Redonda.  Mas os grandes banqueiros e industriais também não gostam de Roosevelt. Assim que ele morrer, o novo governo vai retirar o apoio a seu pai e vai tentar derrubá-lo.

– Mas não vão derrubar ditadores como Franco, da Espanha, que apoiou Hitler e a Alemanha nazista, e Salazar, de Portugal, que ficou neutro. Não vão mexer com os militares argentinos, como esse coronel Perón, que controlam o governo e só agora rompem com a Alemanha para a Argentina poder entrar na ONU.

De volta ao Rio, Lutero transmitiu ao pai o aviso e não estranhou que ele parecesse indiferente:

– Exagero. Imagina… Essas coisas não são assim.

Getúlio evitava contagiar a família com suas preocupações. Supondo que fosse isso, Lutero não insistiu.

Agora, em 1954, ele, aparentemente sem propósito, pergunta a Lutero se ainda se lembra dessa conversa  de 1945.

– Sim, lembro, mas por que?

– Como tu tinhas razão, meu filho. Na época eu não acreditei que isso fosse possível.

Só à medida que avançarem os dias deste mês de agosto, Lutero começará a compreender o que o pai diz em seguida:

– Vai acontecer de novo…

Lutero compreenderá que Getúlio já se sabe com a cabeça a prêmio.

Essa conversa aconteceu na manhã de 2 de agosto, três dias antes do atentado da rua Tonelero, em Copacabana, contra o jornalista Carlos Lacerda, no qual morreu o Major Rubens Florentino Vaz. Esse atentado é que teria provocado a crise final do segundo governo Vargas e o suicídio de Getúlio. Três dias antes, no entanto, Getúlio sabia que ia acontecer de novo aquilo que acontecera em 1945, um golpe para derrubá-lo. Esse golpe, então, aconteceria mesmo sem o atentado. Mas o atentado serviu de pretexto e estopim para ele e precipitou a crise.

No momento do atentado, a guerra contra Getúlio mudou de caráter:

– Em 5 de agosto – dirá Tancredo Neves, então Ministro da Justiça – a crise deixou de ser uma crise política e passou a ser uma crise militar. Aí, realmente, nós encontramos algumas semelhanças com todos os projetos que a CIA adotou na América do Sul, em face de governos que ela desejava com­bater.

– Você vê: no Chile foi o assassinato do [General Renê] Schneider, [Comandante do Exército], que antecedeu a queda do [Presidente Salvador] Allende. Aqui no Brasil pegaram o ma­jor Vaz. Quer dizer, houve realmente assim uma certa… Era preciso juntar ao quadro o ingrediente emocional. E o ingrediente emocional só se atinge com um cadáver. Então foi o major Vaz, lamentavelmente, quem teve de dar essa contribuição.

Muito antes do atentado, Carlos Lacerda já falava toda noite pelas TVs dos “Diários Associados” de Assis Chateaubriand, pedindo a derrubada de Getúlio. Antes de ter acesso a essas TVs, uma no Rio e a outra em São Paulo, as únicas no Brasil de então, Lacerda estava confinado a seu jornal, a Tribuna da Imprensa, de tiragem inexpressiva, e à Rádio Globo, que não era fácil sintonizar fora do Rio.  A televisão é que lhe deu a repercussão que teve. Sem a televisão de Chateaubriand, Carlos Lacerda não levaria tão longe e tão fundo sua campanha contra Getúlio, a pretexto de episódios de corrupção, quase todos supostos, nos quais Getúlio, que sempre agia firmemente nos casos verdadeiros, não tinha qualquer responsabilidade.

A campanha de Lacerda, dos jornais de Chateaubriand e de outros grandes jornais tratava apenas de corrupção, porque não podia confessar seus verdadeiros motivos, entre os quais a Petrobrás.

Muito antes, também, do atentado da Rua Tonelero, amigos e colaboradores como Oswaldo Aranha e Tancredo Neves esforçavam-se para conter ou, pelo menos, atenuar a fúria dos ataques dos “Diários Associados” e das TVs de Chateaubriand, ao governo e à pessoa de Getúlio.

Esses esforços, segundo Tancredo, resultaram inúteis. Mas no dia 16, associando-se pessoalmente a eles, Getúlio recebeu Chateaubriand no Palácio do Catete – encontro que seria revelado pelo próprio Chateaubriand na sessão do Senado na tarde de 24 de agosto, horas depois do suicídio. Nesse discurso, Chateaubriand começou lembrando seu longo relacionamento com Getúlio, anterior à própria Revolução de 1930:

Nestes trinta anos e pouco, estabeleceu-se entre mim e Getúlio Vargas uma intimidade tão constante, tão permanente, sem embargo das divergências doutrinárias, de pontos de vista contrários no encarar os problemas do Brasil, que a nossa amizade pôde ser conservada de tal modo, nestes três decênios, que há oito dias dele recebi um convite para ir ao Palácio do  Catete.

– Esse nosso encontro foi uma das páginas mais dramáticas da nossa vida, pois o que Getúlio Vargas me pedia era o que eu estava disposto a lhe dar: o ato de justiça de esperar que os acontecimentos nos quais se achava envolvida a sua autoridade, pudessem merecer do Judiciário o julgamento indispensável, para que os seus concidadãos aferissem da limpeza, da decência e da dignidade de sua pessoa naquele emaranhado de acontecimentos, de nenhum dos quais, estou certo, havia tido ciência.

A 16 de agosto, nesse encontro, Chateaubriand declarou-se disposto ao ato de justiça de aguardar a decisão da Justiça sobre “os acontecimentos nos quais estava envolvida a autoridade do Presidente”. A 16 de agosto, Chateaubriand, o jornalista e empresário de jornal, rádio e TV mais poderoso do Brasil daquele momento, não duvidava “da limpeza, da decência e da dignidade [de Getúlio] naquele emaranhado de acontecimentos”. De nenhum deles, Chateaubriand estava certo, Getúlio “havia tido ciência”.

Apesar disso, os jornais de Chateaubriand, as rádios de Chateaubriand e a TV de Chateaubriand permaneceram, por mais oito dias, até o desfecho da crise, à disposição de Carlos Lacerda e seus acólitos, contra Getúlio.

Na tarde de 24 de agosto, com Getúlio morto, Chateaubriand só se lembra dos momentos poéticos da convivência com ele. Chateaubriand nem sequer pudera revelar, antes da morte de Getúlio, esse encontro de 16 de agosto. Porque a conspiração avançava e ele era um de seus maiores cúmplices.

Chateaubriand também não revelou, no mesmo discurso, o encontro que tivera, em plena crise, com o General Mozart Dornelles, Subchefe do Gabinete Militar e seu amigo de longa data. Chocado com a virulência dos ataques de Lacerda a Getúlio, nas televisões de Chateaubriand, a do Rio e a de São Paulo, o General Mozart procurou Chateaubriand e ouviu dele o seguinte:

Bastava o Presidente desistir da Petrobrás. Se o Presidente desistisse da Petrobrás, Chateaubriand tiraria Lacerda da televisão e entregaria a televisão a quem o Presidente quisesse, para defender seu governo.

Bastava Getúlio desistir da Petrobrás. De volta ao Palácio do Catete, chocado com a chantagem de Chateaubriand, o General Mozart decidiu aconselhar-se com o Ministro da Justiça Tancredo Neves, seu cunhado (o General era casado com Mariana Neves Dornelles, irmã de Tancredo).

Tancredo respondeu:

– Se é isso, nós sabemos que o Presidente morre, mas não desiste da Petrobrás.

Getúlio morreu mas não desistiu da Petrobrás. Para alguns adversários, a crise de agosto, que o levou ao suicídio, marcaria sua derrota final. A história mostrou, no entanto, nos anos e décadas seguintes, que não foi bem assim. O suicídio salvou não apenas a Petrobrás, como também todas as outras realizações de Getúlio, até o aumento de 100% do salário mínimo.

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