A opinião de quem faz a notícia


06/05/2008


                                    Silvia Ramos

Apesar de considerar que houve uma grande melhora na produção das notícias policiais, a pesquisadora Silvia Ramos, do CESeC, diz que há um paradoxo nessa cobertura:
— Recentemente, em conversa com um editor de Cidade do Globo, ele me disse que, por ser morador da Zona Norte, observa coisas no trajeto para o trabalho que outros editores, da Barra ou da Zona Sul, não vêem. Aquele repórter que cobria polícia e se confundia com policial está em extinção nas redações, dando lugar a outros mais bem-formados, de classe média, que vivem em áreas onde a violência tem que ser silenciada, porque não é o foco principal. Além disso, mesmo nos melhores veículos, 29% do noticiário policial têm como fonte única a polícia. Outro dado que preocupa, apontado pela pesquisa, é que muitos jornalistas não sabem ler dados estatísticos.

 Morro da Providência

Para o repórter André Luiz Azevedo, acostumado a fazer coberturas em áreas de risco, houve uma mudança considerável na relação das comunidades com a mídia:
— Há 35 anos, quando eu trabalhava na Rádio JB, as comunidades não sabiam falar. Houve uma mudança nesse processo, pois os indivíduos aprenderam a se comunicar, mas a imprensa abandonou essas pessoas.

O jornalista considera que a cobertura atual está, ao mesmo tempo, “mais honesta, perigosa e frágil”. No passado, segundo ele, a imprensa tinha que fazer acordos com o tráfico para entrar em qualquer comunidade. Hoje, é mais difícil:
— Atualmente, os bandidos nos vêem como inimigos e isso torna o nosso trabalho muito mais perigoso. Temos que ter consciência de que os criminosos atiram para nos atingir e a polícia não nos protege, porque também nos enxergam como opositores. Carros blindados, colete à prova de bala, tudo isso não tem valor absoluto na hora do conflito. Há também o caso da censura imposta pelo tráfico, que é o grande dilema que a imprensa vive nesse momento, por causa da negociação que as equipes têm que fazer para trabalhar em áreas de risco.

Qualificação

Angelina Nunes, Presidente da Abraji e editora-assistente do Globo, falou sobre a proposta da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo de incentivar o investimento na formação do profissional de imprensa:
— Uma das prioridades da entidade é lutar pela melhoria da qualificação jornalística, incentivar as melhores técnicas de reportagem, trocar informações, disseminar conhecimentos e pôr fim do antigo comportamento do jornalista que não gosta partilhar sua agenda. Esta prática tende a acabar.

Nesse contexto, a Abraji tem realizado congressos, palestras e cursos que ensinam os jornalistas a lidar com estatísticas e transformá-las em pauta. Isso contribui para que os repórteres apurem índices de criminalidade que as autoridades não gostam de divulgar. É preciso aprender a compreender o que está por trás dos dados e não aceitar apenas o que a fonte diz:
— Não é o objetivo do jornalista ser um reprodutor do que a autoridade está divulgando. O jornalista precisa diversificar seu trabalho para estar muito mais qualificado. Quando o repórter estiver cara a cara com uma fonte oficial, vai entender exatamente o que ela quer dizer com as suas palavrinhas mágicas.

Flagrante

Angelina disse que a Abraji também se preocupa com o jornalismo em área de risco e investe na capacitação do profissional em situação de conflito:
— Essa é uma prática diária da profissão no Rio de Janeiro, que não é tão diferente do que acontece em São Paulo ou em Minas. Na rede de comunicação em que os repórteres estão sempre se falando, só mudam os nomes dos bandidos, mas os relatos são os mesmos.

Ana Miguez, do Dia, aproveitou para relatar um episódio, ocorrido em 2004, em que um fotógrafo do jornal acompanhava uma equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, numa favela no subúrbio, quando o helicóptero do grupo quase foi atingida por disparos de fuzis e metralhadoras vindos do Morro da Providência:
— Mesmo com medo de ser atingido, o fotógrafo pôs o braço pra fora e disparou a máquina, fazendo as fotos sem olhar no visor. Quando voltou à redação é que foi ver a seqüência, em que dois moradores do morro, desarmados, estavam sendo intimidados por policiais, que depois apareciam descendo a favela com um corpo sendo carregado num tapete. Com a publicação das imagens, o delegado que comandava a operação e mais seis policiais foram afastados de suas funções. Esse fato gerou uma crise entre a polícia e o jornal e entre o jornal e os leitores, que enviaram uma enxurrada de cartas e e-mails para a redação, protestando contra a decisão de publicar as fotos e alegando que bandidos têm que morrer. Além disso, o fotógrafo passou a sofrer ameaças e foi obrigado a sair de férias.

Para Ana Miguez, em casos assim a imprensa exerce um papel fundamental e acaba mudando o rumo da história:
— Se não fosse a intervenção dos jornalistas, episódios como esse teriam tido outro desfecho.

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