9 de agosto de 2022


A morte de Alberto Dines foi overdose


20/05/2021


Por Norma Couri, jornalista e Diretora de Inclusão Social, Mulher e Diversidade na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Artigo publicado no Observatório da Imprensa


Alguns brasileiros cobiçam jatinho particular, casa em Miami, espaço gourmet, papo pro ar. O jatinho de Alberto Dines era o jornalismo. Pilotado na velocidade da luz.

Nenhum dos seus jatinhos foi mais veloz do que o Observatório da Imprensa, que Dines criou no dia 1 de abril de 1996, há 25 anos. Não passou dois anos foi para a televisão em rede nacional, na data escolhida a dedo por ser o dia da Liberdade de Imprensa, que neste 5 de maio completou 23 anos. Quando Dines criou um dos primeiros jornais on-line no Brasil já tinha 64 anos e, ao catapultar a ousada criação para a TV, estava com 66 anos. Aposentadoria, nunca mais.

Este turbilhão no ar sem pouso certo foi a história que vivi nos 43 anos em que convivemos. E como aprendi sobre criação constante, resistência, equilibrismo, ajudar colegas e generosidade. Nunca vi este jornalista esconder uma informação, guardar um furo só para ele, negar um contato. Era um doador nato de tudo o que tinha, inclusive as minhas bugigangas prediletas se eu não tomasse cuidado. Percebi logo no começo quando os microscópios, balanças e kits montados da minha coleção completa da Abril, Os Cientistas, bolação de Isaias Raw, desapareceram da estante com a explicação: foram doados para o filho do eletricista que não podia bancá-los. Por mais que eu reclamasse, Dines achava as doações justas: era o que ele fazia com seus mimos, fosse coleção de cachimbos, máquinas fotográficas, livros raros. Iam para amigos, bibliotecas e museus.

As demissões, e ele teve pra lá de dez na vida, eram estímulo para uma nova aventura no jornalismo. O que significava se atirar no precipício sem rede como aconteceu depois de 12 anos como editor-chefe do Jornal do Brasil, que o levaram à coluna Jornal dos Jornais e chefe de redação da sucursal Rio na Folha de S.Paulo. Foi a demissão da Folha que o transportou a São Paulo em 1983.

A criação do Observatório veio na sequência do seu pedido de demissão do cargo nababesco de diretor da editora Abril em São Paulo. Em 1988 Dines recebeu uma bolsa da Fundação Vitae para criação pessoal, no valor de 10 mil dólares. Foi o único dinheiro e sua chance de passar um ano na Torre do Tombo entre ácaros, traças e cadáveres, para escrever a biografia do dramaturgo carioca Antonio José da Silva morto num auto de fé em Lisboa no ano de 1739.

No meio da trajetória do livro, a editora Abril, em sociedade com Francisco Pinto Balsemão, resgatou-o para lançar as primeiras revistas em Portugal. Assim nasceram a Exame, em 1989, a Claudia, renomeada Activa, em 1991 (que era uma joint-venture com a GE Magazine em Londres), a Cosmopolitan, em 1993, a supervisão da Casa Claudia.

Além disso, Dines era consultor de um dos maiores jornais portugueses, o Expresso. Era o que bastava para qualquer jornalista. Para ele, parecia pouco, fácil demais. Não era o seu país, ele dizia. De repente resolveu reunir um grupo de jornalistas para criar a semente em Portugal do que seria o Observatório da Imprensa, com o mesmo nome. Deu tão certo que rendeu vários congressos e seminários no Brasil, Portugal, Macau. Ideia acesa, bastou o então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, encontrá-lo num jantar em Lisboa para juntos articularem a criação do Observatório no Brasil.

Estava decretada a antecipação da sua volta ao Brasil, em 1996. Dines tinha 64 anos e voltou sem qualquer garantia de emprego a não ser a meta/sonho de criar o Observatório na web, um ato que qualifiquei como suicídio profissional. Não o acompanhei. Ele gastou dois anos de idas e vindas para me trazer de volta e me convencer de que o sonho do Observatório, com todas as dificuldades — e foram muitas — compensava a vida mansa de Lisboa.

Além do lançamento do livro que o levou à Lisboa, Vínculos de Fogo – volume 1 (Companhia das Letras, capa dura, 1058 páginas, 1992), e de pelo menos mais 15 livros, coleções, prefácios, com direito a palestras, entrevistas, aulas, Dines achou tempo para outro dos seus sonhos que nasceu com Morte no Paraiso em 1981 e nunca o abandonou. Reuniu amigos e criou um museu, a Casa Stefan Zweig em Petrópolis, museu dos exilados, na mesma casa onde o escritor austríaco se matou em 1942 com a mulher em Petrópolis. Foi seu primeiro presidente.

Mas o motor de arranque era o incansável Observatório que Dines supria todos os dias de novos colaboradores, novas ideias, novos patrocinadores, com sintonia fina na mídia, atuando como um visionário da democracia na web e na TV.

A ponte-aérea para o Rio era semanal; comia de dois a três dias da semana nos estúdios cariocas da TVE tornados TV Brasil, no final gerido pela EBC que gerou o desastre. O que sobrava da semana era consumido na casinha mobiliada com milhares de livros, documentos, fotos, revistas e jornais na Vila Madalena. É o escritório Jornalistas Associados que, apesar do nome, tem dois jornalistas, diretores, Dines e eu, sua mulher e ex-aluna do curso de Comunicação da PUC do Rio.

A casinha era o que Dines chamava de seu paraíso. Isso mesmo, a Terra é redonda e azul mas o céu tem cheiro de celulose e tinta, é cheio de computadores, tablets, impressoras, jornais e movido a imprensa, recheado de jornalistas para um cafezinho, entrevista, uma nova ideia. O Observatório, on-line e televisado, era gerado Ali.

Os aniversários do Observatório eram coisa séria e na TV sempre ocorria uma série espetacular como a da Segunda Guerra, a entrevista com Eduardo Galeano no Uruguai, os bastidores do El País em Madri, os jornalistas perseguidos em Buenos Aires. Nenhum assunto semanal ficava sem discussão e análise.

A corrida para comemorar os 20 anos do Observatório na TV tomou o pouco que restava para Dines de noites de sono e se deu justamente quando a troca de governo aconteceu. O golpe contra Dilma, a tomada de Temer, a demissão da turma colocada pelo governo num dia, a chegada da nova turma no outro, a troca de tudo com habeas corpus no dia seguinte, tudo se sucedendo sem que, no final do ano de 2015 a TV, nem de um lado nem de outro, se animasse a renovar o contrato do programa — embora todos dissessem que era o melhor programa da TV. Nunca se trabalhou tanto para manter o programa no ar enquanto se fabricava outro para o aniversário. A tensão tomava conta de todos os ambientes, as conversas não levavam a nada, a de-pressão nos estúdios contaminava, a equipe temia o desemprego. Dines não conseguia mais dormir.

Na madrugada do dia 21 para 22 de fevereiro de 2016, na volta do Rio, ficamos no escritório da Vila Madalena até as 4 da manhã. No dia seguinte, Dines seria entrevistado por Mona Dorf e ia receber duas ou três pessoas à tarde. Voltamos para casa; já sabia que seriam poucas horas de sono. Quando acordei, Dines já estava lendo O Globo. E lendo O Globo ficou. Paralisado. Coincidência ou não, 22 de fevereiro foi o dia em que Stefan Zweig escolheu se matar com a mulher.

Foram dois anos e três meses de hospital, paradas cardíacas, mortes anunciadas. Foi salvo pela ajuda de amigos. Até a morte aos 86 anos, que neste 22 de maio completa 3 anos. Dines personifica o caso do jornalista que foi morto por overdose de Jornalismo, leia-se Observatório, leia-se Imprensa. Ele não se conformou em ver seu jatinho despencar de bico num iceberg, sem sobreviventes.

PS: leia amanha o artigo Alberto Dines – Antes e Depois do Observatório da Imprensa, de Venício A. de Lima, parte do livro recém-lançado Parceiros de Caminhada. O texto de Venício começa assim:

Alberto Dines foi um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Professor no Brasil e na famosa Columbia University de Nova York, biógrafo e escritor, autor de 15 livros. Ganhador do Prêmio Jabuti (em 1993, por nculos de Fogo”, na categoria Estudos Literários). Em 1968, depois do AI-5, esteve preso e foi processado por sua intransigente posição contra a censura. Sua contribuição para o jornalismo, seu estudo e sua crítica, são inestimáveis.

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