14 de agosto de 2022


A força de quem tem Força


10/03/2021


Por Zeze Sack, jornalista, membro da Diretoria de Cultura da ABI

Maria Bonita, fotografada em 1936 por Benjamin Abrahão Botto

Hoje, na coluna Guantanamera – o caminho da música, vou falar de um personagem que quase ninguém fala. Ela é forte, corajosa, destemida, vaidosa e gosta de música e de dançar. Em contato com muitos homens e poucas mulheres, ela foi a primeira a entrar numa legião masculina justo  pelas mãos daquele,  que seria seu grande amor.

Numa época em que  mulheres não conviviam com os homens tão frequentemente. Aí, já existe um diferencial nesta jovem mulher.

Falo de Maria Bonita, mulher de Lampião. Nos anos de 1930,  foi a primeira mulher a ingressar no cangaço.  A partir daí,  por volta de 48  mulheres participaram da vida do bando. A Bahia foi o Estado que forneceu o maior número de moças ao chamado banditismo do Sertão nordestino, seguido por Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

Maria Bonita já era uma mulher moderna, logo após os 15 anos, casou por obrigação com o sapateiro José Miguel, depois de muitas brigas, o casamento não deu certo. Buscou abrigo na casa dos pais por muitas vezes.

Resolveu se separar em 1928, época em que a separação era algo inaceitável.

Conheceu Lampião no ano seguinte, pois o bando  passava pelas fazendas da região do Município da Glória, atual cidade de Paulo Afonso. A atração foi recíproca. Baixinha, com olhos e cabelos castanhos, era uma mulher bonita e determinada, o que chamou a atenção do cangaceiro.

A dura vida dessas mulheres, que eram em sua maioria, levadas contra a sua vontade e tinham uma vida de nômade, muitas vezes mal alimentadas, tendo que caminhar quilômetros sob o sol e a chuva, além de enfrentar os combates violentos contra as forças policiais.

Nos jornais da época, as mulheres eram chamadas de bandoleiras, megeras e amantes. Muitas eram estereotipadas como masculinizadas, mas as fotos de Maria Bonita mostram seu cuidado com o traje, o cabelo e a postura.

Os papéis sociais no cangaço eram bem definidos: ao homem cabia zelar pela segurança e sustento dos bandos. À mulher, ser esposa e companheira. Durante a gestação elas ficavam escondidas. Depois do nascimento do bebê, eram obrigadas a entregar a criança a amigos e retornar ao cangaço. Maria Bonita teve quatro filhos durante esse período.

Várias mulheres do cangaço também tiveram filhos (Dadá por exemplo, teve vários filhos e ficou 12 anos no cangaço, foi uma das mulheres mais importantes, reverenciada pela sua memória, excelente, capaz de recriar tudo com muita lucidez que surpreendia a todos). Balão, do bando de Lampião dizia que: “ a presença de mulheres no cangaço, atrapalhava”. Mesmo assim, teve 38 filhos com várias mulheres…

Expedita Ferreira – filha de Lampião e Maria Bonita, ‘’Quando criança tinha muita vergonha dos meus pais, porque ouvia sempre falar coisas horríveis sobre eles. Só depois fui compreender o que significava a história de seus pais’’.

Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita é jornalista e escritora. Desde muito cedo iniciou sua pesquisa sobre a história do Cangaço e dos seus avós. Vera  conta que durante sua pesquisa teve contato com muitos ex-cangaceiros e ex-volantes, além de ter conversado com muitos parentes de pessoas que compuseram o cangaço. Disse ainda que , apesar de tão polêmico e apaixonante que é o cangaço, sabemos muito pouco sobre ele.  A cada dia nos deparamos com novas informações preocupantes porque temos tantos doutores no cangaço, formados por pessoas que lêem um livro e se acham doutor em cangaço.

As ações de Maria Bonita, Lampião e seu bando duraram até 1938, foram oito anos convivendo juntos e praticando o banditismo social, até que o comerciante Pedro Cândido revelou à polícia, depois de ser torturado, o esconderijo de Lampião.
Em 1982 a TV Globo produziu a série “Lampião e Maria Bonita”, quando foram protagonizados por Nelson Xavier e Tânia Alves.

Fonte:
Dilva Frazão – Biografia
Programa – Sem Censura TVE – Filha de Lampião
Programa – TV Bahia – Neta de Lampião

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