16 de agosto de 2022


A ditadura na tela


07/06/2021


Por Moacyr Oliveira Filho (Moa), jornalista, membro efetivo do Conselho Deliberativo da ABI, foi preso pelo DOI-CODI do II Exército,  em maio de 1972


Há alguns anos, me dedico a uma pesquisa para listar filmes e programas de TV que contam a história da ditadura civil-militar de 1964. Esse trabalho tem o objetivo de preservar e resgatar a memória desse período de nossa história, seguindo o lema Para que Não se Esqueça, Para que Nunca mais Aconteça, e disponibilizar para as novas gerações esse material que traça um painel do que foi a ditadura militar.

Recentemente, em função da pandemia, e do ócio forçado provocado pelo isolamento, decidi retomar a pesquisa, para ocupar o tempo, e me surpreendi com o resultado. Ao contrário do que eu imaginava, a produção cinematográfica sobre a ditadura e os últimos episódios ocorridos a partir de 2013, com as chamadas Jornadas de Junho, que culminaram no golpe do impeachment da presidente Dilma, na Operação Lava-Jato, na prisão do presidente Lula e na eleição de Jair Bolsonaro, é bastante expressiva. Com isso, a pesquisa se ampliou e vai até os dias atuais, listando, até o momento, 377 filmes e programas de TV que abordam, direta ou indiretamente, temas ligados à ditadura militar de 1964, os seus antecedentes históricos e o atual momento de retrocesso democrático que estamos vivendo.

A lista começa com Os Fuzis, de Ruy Guerra, de 1964, que conta a história de um bolsão de fome no Nordeste, onde um grupo de soldados e um motorista de caminhão tentam impedir que a população faminta da seca no sertão da Bahia invada e saqueie um depósito de alimentos, e vai até Alvorada, de Anna Muylaert e Lô Politi, de 2021, que narra de um ponto de vista íntimo, o dia a dia da presidenta Dilma Rousseff na sua residência oficial, o Palácio do Alvorada, enquanto aguardava o veredito do processo de impeachment, lançado em maio nas plataformas digitais.

Esses 377 filmes e programas de TV retratam episódios, personagens, líderes, heróis e vítimas da ditadura e da resistência democrática no Brasil. Dos antecedentes históricos do golpe – Getúlio, JK, Jânio e Jango à eleição de Tancredo. Do Comício da Central às Diretas Já. Do golpe de 64 ao Colégio Eleitoral e a eleição de Tancredo Neves. A anistia, a Constituinte, a bomba do Rio Centro, a eleição de Lula e a Comissão Nacional da Verdade. As jornadas de junho de 2013, a Operação Lava-Jato e o golpe jurídico-parlamentar-midiático do impeachment de Dilma. A eleição de Jair Bolsonaro e a nova ameaça à democracia.

Só não tenho 37 desses 377 títulos, a maioria deles das produções mais recentes, a partir de 2016. Os outros 340 estão em DVD ou em arquivo de vídeo.

Com o surgimento do serviço de streaming nas plataformas digitais – Netflix, Globo Play, Now, Prime Vídeo, entre outros – alguns desses títulos podem ser vistos nessas plataformas, mas não é possível fazer download para se guardar o arquivo, nem existe DVD para se comprar. Essa modernidade, causa grave prejuízo para os colecionadores à moda antiga, bibliotecas e arquivos de universidades, entidades e instituições, e para a própria preservação da memória, dificultando que esse acervo possa ser transmitido para as novas gerações. Uma solução óbvia seria a comercialização dos bons e velhos DVDs ou mesmo a opção de compra para download, nos serviços de streaming.

Essa busca pelos filmes que me faltam provoca algumas situações inusitadas. O filme João Saldanha, de André Iki Siqueira e Beto Macedo, que retrata a vida do polêmico treinador de futebol, comentarista e militante comunista, de 2011, foi lançado em DVD pela Coleção Canal Brasil. Está esgotado e é considerado uma raridade. Mas pode ser encontrado no Mercado Livre, novo e lacrado, pelo exorbitante preço de R$ 890,00, ou por R$ 750,00, numa versão usada. Quando contei isso ao diretor do filme, André Iki Siqueira, pelo Messenger, que também não tem o DVD, ele ficou horrorizado. Aliás, outros diretores com os quais mantive contato também disseram não ter cópia ou DVD dos seus filmes, por terem licenciado as obras para os tais serviços de streaming. O que não deixa de ser uma situação inusitada.

A pesquisa revelou, também, coisas inesperadas, como o filme E agora, José? A tortura do sexo, de Ody Fraga e David Cardoso, de 1979, cineastas da pornô-chanchada, com uma trama que aborda temas como a tortura, a clandestinidade e a luta contra a ditadura num filme pornô.

Quando comecei a pesquisa, pensei que ela poderia ser um bom roteiro para um curso sobre a ditadura militar. A ideia não foi adiante, mas a pesquisa sim.

Hoje, quando ameaças autoritárias voltam a colocar em risco a democracia no Brasil, relembrar o passado é fundamental para que as novas gerações saibam o que já vivemos e se mobilizem para lutar para evitar que tais excessos de repitam.

Estou colocando a pesquisa e o acervo à disposição da ABI para que ela seja preservada e seu acesso liberado para quem se interessar.

Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça!

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