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A despedida de Marceu Vieira, o grande jardineiro de nossas vidas, no 9º andar da ABI


Por Jorge Antonio Barros, em Quarentena News
Fotos: Jorge Antonio Barros e Fernando Rabello

 

Uma salva de palmas sem fim, que ouvíamos como num looping imaginário, inundou o 9º andar da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro do Rio, que se transformou em um palco de profunda emoção e memória na despedida do jornalista Marceu Vieira, que morreu aos 63 anos na segunda-feira, deixando três filhos.

Veja aqui

https://youtube.com/shorts/nSTp7nQX3ME?si=OkY988Uuz3Em8y2M

O foyer do histórico centro de debates políticos e sociais, local de resistência contra a ditadura, alvo de bombas reacionárias, acolheu o caixão do notável repórter, coberto pelo manto sagrado de sua maior paixão: o Clube de Regatas Flamengo. O saguão estava repleto de coroas de flores, como se todos seus amigos reforçassem que Marceu foi, sim, o grande jardineiro de nossas vidas, com suas crônicas, poemas e músicas de rasgar o coração. A escolha da bandeira rubro-negra resumiu a essência de Marceu: um homem de convicções fortes, paixões explícitas e um coração que batia no ritmo intenso da notícia, do samba e do futebol. A imagem do símbolo do clube sobre o caixão falava tanto sobre ele quanto qualquer manchete que assinou. Faltou um daqueles surdos de escola de samba. Mas não faltaram algumas de suas músicas, como “Brasileiro da Gema”, composta com o parceiro de sempre, Tuninho Galante, que foi prestar a última homenagem.

O ambiente de luto foi atravessado por histórias e lembranças de uma trajetória marcada pela excelência no jornalismo. Passaram por lá entre 13h e 16h mais de 500 pessoas. O adeus reuniu um público expressivo de parentes, amigos e colegas de trabalho, formando um mosaico de gerações de profissionais que aprenderam com sua escrita e sua paixão pelo jornalismo. Estavam lá suas filhas, Vitória e Maria – que leu um poema inédito de Marceu – e as ex-mulheres dele, Madalena e Simone Bloris, além da irmã, Ceumar. Os pais e parentes mais próximos foram homenageá-lo pela manhã, no velório em Morro Agudo, bairro de Nova Iguaçu, onde ele nasceu em 1962.

Veja aqui a fala do presidente da ABI, Octávio Costa.

https://youtube.com/shorts/5kY5rAq6_8o?si=TxCQlEoIp_LGKPh8

Entre as personalidades que prestaram homenagens, o presidente da ABI, Octávio Costa, destacou a importância de Marceu para a profissão. Em seu discurso emocionante, Octávio ressaltou o legado de um repórter incansável, que soube transitar com igual maestria entre a reportagem política e a crônica cultural, sempre mantendo um olhar crítico e humanista. “É um dia triste, mas esta é uma homenagem merecidíssima. É impressionante o número de coroas de flores. Estamos diante de um verdadeiro jardim. A quantidade de colegas presentes aqui é algo inédito na vida da ABI, que mostra o carinho imenso que todos nós temos pelo nosso querido Marceuzinho. Quem trabalhou com ele sabe o quanto ele era doce, generoso, solidário, carinhoso, amigo de todas as horas, aquele rosto de menino, aquele sorriso franco que sempre marcou a figura de Marceu. Mais que justa essa homenagem. Essa presença enorme de colegas. Um grande jornalista, um grande compositor, um grande poeta. Como disseram os filhos, Marceu era um homem de qualidade, um homem digno. É isso que vai ficar pra sempre. Ele estará eternamente em nossos corações”, afirmou o presidente da ABI, que pediu uma salva de palmas para Marceu, aplaudido também quando o caixão deixou o prédio da associação.

O tênis All Star preferido de Marceu, levado pela família: hábito singelo do jornalista

 

Os colegas recordaram as madrugadas em redações, a precisão cirúrgica de seus textos e, acima de tudo, o companheirismo. Não foram apenas elogios à técnica, mas sim um reconhecimento ao ser humano por trás das palavras. Estavam lá os colegas de turma na Universidade Federal Fluminense, como Cristiane Costa e Aydano André Motta, que também discursou. Eles se formaram em 1982 e tiveram como patrono da turma o delegado Ivan Vasques, um policial que se tornou símbolo ao enfrentar um general da ditadura acusado de homicídio.

Marceu transbordou tanto amor em sua trajetória que até sua morte serviu para reunir velhos amigos e colegas das redações por onde ele passou. Entre tantos, revi Ancelmo Gois e Tina Correa, Alexandre Medeiros, Vitor Iório, Eliane Bardanachivilli, Marió Campbell, Graça Lago, Angela Regina Cunha, Mauro Ventura, Daniel Brunet, João Pimentel, Paulo Motta, Carlota Araújo, Chico Otávio, Elenilce Bottari, João Batista de Abreu, Fernando Maia, Luciana Conti, Marcelo Moreira, Angelina Nunes, Flávia Oliveira, Coriolano Gatto, Ítala Maduell, Cristina Carmo, Gilberto Menezes Côrtes, Oscar Valporto, Adriana Castello Branco, Paula Máiran, Daniela Schubnell, Daniella Matta, Simone Intrator, Iuri Totti, Lúcia Novaes, Tadeu Aguiar, Tânia Malheiros, Vera Perfeito, Iara Cruz (diretora cultural da ABI), Gloria Alvarez, Marcelo Auler, Maria Cristina Valente, Irany Tereza, Sônia Pompeu, Fernando Rabello e Fellipe Awi – o chefe imediato de Marceu, no “Conversa com Bial”, da TV Globo, o derradeiro emprego.

O corpo de Marceu foi velado no mesmo local onde houve o velório de alguns célebres jornalistas, como Paulo Henrique Amorim, Ferreira Gullar e Rogério Daflon. A despedida, ali, na sede histórica da imprensa brasileira, reforçou o laço indissolúvel entre Marceu Vieira e a história de sua profissão. Ele se foi fisicamente, mas deixou uma lição de que o bom jornalismo, feito com paixão e verdade, é a melhor forma de honrar a vida de um repórter. O time rubro-negro se despede de seu torcedor, e a imprensa, de um de seus mais valiosos nomes. A memória de Marceu, assim como a bandeira que o cobriu, permanece hasteada.

 

OUÇA A MÚSICA BRASILEIRO DA GEMA, CANTADA NO VELÓRIO DE MARCEU VIEIRA