A cidade no foco da cobertura esportiva


20/08/2012


Do ponto de vista jornalístico, os Jogos Olímpicos de Londres 2012 registraram saldo positivo para alguns veículos brasileiros, principalmente para aqueles cujo ganho editorial foi fazer uma abordagem diferenciada da grande oferta de novidades noticiosas do megaevento esportivo realizado na capital londrina, entre os dias 25 de julho e 12 de agosto.
 
 
Com as atenções dos telespectadores e do mercado publicitário voltadas para a queda de braço entre a TV Globo e a TV Record pela audiência, o noticiário na mídia televisiva sobre a Olimpíada foi concentrado nas apresentações e divulgação dos resultados das modalidades esportivas e no balanço do quadro de medalhas conquistado pelos países participantes.
 
 
Na internet, o Portal Terra, que atuou com exclusividade para as transmissões pela rede, informou uma audiência total de 97,8 milhões de pessoas nos 19 países (América Latina, Estados Unidos e Espanha) nos quais tinha direitos de transmissão. No total, foram disponibilizados 40 mil fotos e cinco mil vídeos on-demand
 
O portal totalizou 4 mil 750 horas de transmissão em português para o Brasil e a mesma quantidade em espanhol. Os vídeos, sejam ao vivo ou sob demanda, contabilizaram 122,4 milhões de visualizações (streamings), sendo10 milhões de streamings em dispositivos móveis. Uma marca considerada inédita em termos de transmissão de eventos esportivos via celulares e demais dispositivos móveis pelo Terra.
 
 
 
Mudança
 

Enquanto isso na imprensa, o destaque foi para o tratamento editorial do jornal carioca O Globo, que conseguiu oferecer aos leitores uma cobertura equilibrada da Olimpíada nas plataformas on-line e Globo a +, para iPad, além do jornal impresso cujo caderno de Esportes circulou com uma edição diferenciada, com o esporte servindo de gancho para abordagens sobre o legado social da Olimpíada.
 

Na sua quinta Olimpíada à frente da editoria de Esportes do Globo — a primeira foi a de Atlanta (EUA), em 1996 — o jornalista Antonio Nascimento, ou Toninho, como é chamado carinhosamente pelos colegas do jornal, falou ao ABI Online sobre os aspectos que influenciaram a mudança de tratamento editorial na cobertura dos Jogos de Londres.

 
 
Um dos motivos, segundo o editor, foi o fato de que daqui a quatro anos teremos a realização de uma Olimpíada na cidade Rio de Janeiro:
— Isso mudou completamente o tratamento que normalmente fazemos de um evento esportivo como os Jogos Olímpicos. Em Londres, tivemos um conteúdo de cidade muito grande, o que nos obrigou a enviar  repórter da editoria Rio, Luiz Ernesto Magalhães, para acompanhar as decisões relativas aos Jogos do Rio de Janeiro, que foram tomadas na capital britânica, onde estavam o Prefeito Eduardo Paes e o Governador Sérgio Cabral. Então era fundamental ter um repórter em Londres cuidando desses assuntos, disse o jornalista.
 

A missão de Luiz Ernesto Magalhães foi investigar e explicar para o leitor do Globo sobre a parte operacional da Olimpíada relativa a transporte e mobilidade, ouvindo os responsáveis pela organização do evento, observando a movimentação da população e visitantes para mostrar o legado social do megaevento esportivo.
 
Como se sabe a Olimpíada de Londres 2012 serviu como uma espécie de laboratório para o Comitê Rio 2016, que enviou mais de 160 observadores da União, Governo do estado e Prefeitura para acompanhar todos os aspectos relacionados à sua organização, desde questões de infra-estrutura urbana, trânsito, segurança, logística, instalação de equipamentos e a parte operacional propriamente dita dos Jogos.

Toninho conta que o principal do planejamento editorial do Globo para a cobertura da Olimpíada de Londres foi encará-la como parâmetro para a produção jornalística dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. E destaca nesse contexto a mudança da própria estrutura do jornalismo, que atualmente se desenvolve em várias plataformas:

— Nessa Olimpíada tivemos a produção de conteúdo para o on-line, 24 horas, e o jornal impresso fechando por volta das 22h. E também trabalhamos conteúdo para um produto novo que é o “Globo a +”, mini-jornal para iPad, cujo fechamento é às 15h.
Ou seja, foram praticamente três fechamentos, em 24h, lembrando que o on-line é atualizado em tempo integral, explicou Toninho.
 
 
Prioridade
 
 
Para não perder nenhuma informação importante sobre os Jogos foi feito um acordo com o jornal norte-americano The New York Times, para o envio de material em português, em tempo real, de todos os resultados, quadro de medalhas, dentre outras informações importantes que eram disponibilizadas no Globo Online.
 
 
Com relação às matérias especiais, com imagens e fotos, foi deslocado um profissional somente para cuidar desse produto, trabalhando quase que exclusivamente com esse conteúdo. Além da atenção com o jornal impresso tradicional: “O nosso carro-chefe, para o qual reservamos as matérias mais analíticas”, afirmou o editor.
 
 
Toninho demonstra entusiasmo com o jornalismo multiplataforma. À pergunta sobre o que um modelo favorece o outro, ele respondeu:
— Da experiência de ter trabalhado em cinco Olimpíadas eu pude observar algo muito interessante: a internet é muito útil para a edição impressa. Aquele jornal que fazíamos antigamente (referindo-se às coberturas dos Jogos de 1996 e 2000), de 800 matérias não existe mais, graças a Deus. Não precisamos mais noticiar 15cm sobre lançamento de martelo, 10cm de cuspe em distância. Não! A gente só publica no impresso o que for fundamental e de forma analítica, disse Toninho.  
 
 
Ele se diz satisfeito com o modelo de jornalismo mais seletivo praticado na imprensa atualmente:
— Escolhemos a nossa prioridade, e no papel é ela que nós vamos noticiar, sem nos importarmos com o resto. Sem desvalorizar o on-line, que serve muito para dar os resultados em tempo real.
 
 
Segundo o editor, ao jornal impresso cabe a informação do fato com mais objetividade:
— Tanto é que eu pude fazer a mais enxuta cobertura, em número de páginas, de todas as Olimpíadas que eu participei. Sinceramente, não senti falta do modelo anterior, devido a essa modificação provocada pela internet e a disponibilidade de distribuir os assuntos em outras plataformas, declarou Toninho.  
 
 
O melhor disso tudo, segundo ele, foi poder fazer um caderno de Esportes mais enxuto sem prejuízo do conteúdo, da notícia de qualidade:
— Foi ótimo porque eu nunca trabalhei com mais de dez páginas, enquanto os outros jornais circularam com um montão de páginas, que na realidade ninguém lê. No caso do Globo, a exceção ficou por conta de anúncios.  Fazer uma cobertura em três plataformas diferentes foi uma experiência diferente e muito boa de trabalhar, afirmou.