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50 anos sem Zuzu Angel: memória, luta e verdade


14/04/2026


Zuzu Angel durante o lançamento de sua coleção em Nova York, 1972. Foto: Fundo Correio da Manhã.

Por Geraldo Cantarino

Nesta terça-feira, 14 de abril, completam-se 50 anos da morte da renomada costureira e estilista Zuzu Angel, um dos casos mais emblemáticos da ditadura militar brasileira. Na madrugada de 14 de abril de 1976, Zuzu morreu aos 54 anos em um violento acidente de carro na saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro — hoje rebatizado com o seu nome. À época, a polícia classificou o episódio como um “acidente automobilístico”. No entanto, as circunstâncias da tragédia, envolvendo a perda de controle do veículo, capotamentos e a queda em um barranco, levantaram suspeitas imediatas entre familiares e amigos, que viram no caso mais um possível crime político.

Décadas depois, essa suspeita foi confirmada. A Justiça brasileira reconheceu, 44 anos após o ocorrido, que Zuzu Angel foi assassinada por agentes do Estado. Sua morte, amplamente noticiada e acompanhada por imagens do carro destruído, comoveu o país e se inscreveu na memória nacional como símbolo da violência e da repressão política daquele período.

Zuzu Angel, nome artístico de Zuleika Angel Jones, era mãe de Stuart Edgar Angel Jones, fruto de seu casamento com o norte-americano Norman Angel Jones. O casal, que se separou em 1960, teve ainda duas filhas, Ana Cristina e a jornalista Hildegard Angel. Estudante de Economia, militante político e integrante do MR-8, Stuart foi acusado de participar de ações armadas contra o regime, incluindo o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em 1969. Em 14 de maio de 1971, aos 26 anos, desapareceu. Investigações posteriores indicam que ele foi preso por agentes da repressão e levado à Base Aérea do Galeão, onde foi torturado até a morte.

Relatos de testemunhas, como o ex-preso político Alex Polari de Alverga, descrevem sessões brutais de tortura, incluindo espancamentos, choques elétricos, afogamento. Stuart teria sido ainda forçado a aspirar gases tóxicos, ao ser arrastado preso a um jipe, episódio que ecoa na canção “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil. Seu corpo jamais foi entregue à família, tornando-o um dos mais conhecidos desaparecidos políticos do país.

Diante do silêncio das autoridades, Zuzu Angel iniciou uma incansável busca por respostas. Durante cinco anos, percorreu quartéis, procurou autoridades e denunciou o caso no Brasil e no exterior. “Qualquer pista que davam eu seguia em frente”, escreveu. Sua luta desafiava diretamente o discurso oficial de que não havia tortura no país e passou a gerar repercussão internacional, inclusive com pressões de parlamentares norte-americanos.

Em uma de suas ações mais ousadas, Zuzu conseguiu entregar pessoalmente um dossiê sobre o filho a um assessor do então secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, durante visita ao Rio de Janeiro, em fevereiro de 1976. “Eles não apenas o torturaram até a morte, mas também me privaram, sua mãe, de velar o seu corpo”, escreveu. Sua atuação provocava constrangimentos ao governo do general Ernesto Geisel, especialmente em um momento em que o regime buscava melhorar sua imagem no exterior.

Segundo o The Washington Post, o projeto mais recente da estilista era mobilizar opinião pública internacional contra o governo brasileiro, justamente às vésperas de viagens oficiais de Geisel à Europa. Zuzu foi morta 11 dias antes da partida do presidente para Paris, o que reforça suspeitas de que seu assassinato tenha sido articulado para evitar constrangimentos diplomáticos. Além disso, ela investigava denúncias de corrupção envolvendo autoridades do regime.

Ao longo de sua trajetória, Zuzu Angel transformou a dor pessoal em luta coletiva, denunciando violações de direitos humanos e apoiando outras famílias de desaparecidos. “Eu não tenho coragem. Coragem tinha meu filho. Eu tenho legitimidade”, costumava dizer.

Cinco décadas depois, sua história permanece como símbolo de resistência e da busca por verdade e justiça.

A seguir, leia a entrevista “Hildegard Angel: Minha mãe foi morta por ordem de Geisel”, publicada no Jornal do Brasil em 12 de maio de 2018, concedida a Octávio Costa, então editor de Política do jornal e hoje presidente da ABI, e o post de Hildegard Angel no Facebook, comentando o caderno especial dos 50 anos da morte de Zuzu Angel, publicado no Estado de Minas, em 14 de abril de 2026.

 

Hildegard Angel: Minha mãe foi morta por ordem de Geisel

Por Octávio Costa, Jornal do Brasil, 12/05/2018

Filha da estilista Zuzu Angel, morta no governo Geisel, em 1976, a colunista Hildegard Angel não ficou surpresa com as revelações do memorando da CIA. Segundo ela, o gabinete de Geisel encomendou o atentado contra sua mãe, na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado. “O caso de minha mãe está mais do que esclarecido. Não foi um acidente mal esclarecido.”

Qual sua reação diante do documento da CIA que revela a participação do general Geisel nas execuções durante a ditadura militar?

Vi como uma predestinação. Aqui no Brasil queimaram toda a documentação. Houve queima de arquivos. Fizemos um pacto sinistro. Houve um corporativismo fechado, uma blindagem da história brasileira. Mas havia um documento lá na sede do grande irmão. Eles não contavam com isso.

Você ficou surpresa com os fatos agora revelados?

Para mim não foi uma revelação. Quando o Claúdio Guerra, que foi delegado do DOPS, escreveu seu livro sobre a repressão, ele mencionou o caso de minha mãe (a estilista Zuzu Angel) e disse que o coronel Freddie Perdigão foi o organizador da emboscada encomendada que matou a minha mãe em 1976.  Foi encomendada a ele diretamente pelo gabinete do Geisel. A Comissão da Verdade recorreu ao livro do agente do Dops e ele mencionou que  havia foto do Perdigão no local do crime, na saída do túnel Dois Irmãos (hoje Zuzu Angel), em São Conrado.

Qual foi a conclusão das investigações?

O caso de mamãe foi investigado desde a Comissão dos Mortos e Desaparecidos até a Comissão Nacional da Verdade. As três comissões fizeram investigações, ouviram testemunhas e peritos, e concluíram que minha mãe foi vítima de uma emboscada por agentes do governo.  O ex-ministro da Justiça Miguel Reale conversou com duas testemunhas. Mas até hoje tem gente bem informada que atribui a morte de mamãe a um acidente mal esclarecido. Nunca um caso foi tão esclarecido. Esse é um cacoete nacional. Precisamos nos convencer da monstruosidade da ditadura brasileira. Por isso, ainda vemos jornalistas importantes escrevendo que houve um acidente mal esclarecido. Quando mal esclarecidos estamos nós.

A Comissão Nacional da Verdade reconheceu o crime do Estado contra Zuzu Angel?

Nossa família recebeu R$ 80 mil de indenização. E a comissão endossou o depoimento do  Cláudio Guerra. Portanto, o Estado reconheceu que o gabinete de Geisel chancelou o atentado. Mas temos muita dificuldade de aceitar que vivemos isso. Talvez exatamente por isso estejamos vivendo esse momento em que se tenta qualificar a ditadura militar. Tentam justificar a ruptura democrática, seja na política, seja pelo Judiciário.

Você pretende reabrir o caso de sua mãe?

Vou primeiro ouvir o Nilo Batista, que ajudou na reconstituição da tortura e morte de meu irmão Stuart Angel, ouvir o Pedro Dallari, que ajudou no caso de minha mãe, e outras pessoas que possam me aconselhar, como o ex-deputado Nilmário Miranda. Depois tomarei a decisão.

 

Hilde Angel, no Facebook, 14/04/2026

Belíssima homenagem na edição de hoje do jornal Estado de Minas, à cidadã mineira em todos os poros, “Heroína da Pátria”, Zuleika Angel Jones.

Em 14 de abril de 1976, Zuzu Angel falecia, “morte não natural, violenta, causada pelo Estado Brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985” – conforme a certidão de óbito emitida pelo próprio Estado.

Hoje, passados 50 anos de seu assassinato, a memória da mãe-coragem obstinada é exemplo de resistência, e seu legado exemplar na moda, “com brasilidade” – como ela pregava e insistia, leva nossas marcas a ultrapassarem fronteiras e ganhar o mundo. Como Zuzu previu, para escárnio e espanto das então chamadas autoridades da moda, “a moda brasileira só pode ser internacional se for legítima”. Estava certa.

O Brasil lembra Zuzu com títulos, medalhas, respeito, admiração e gratidão pela bravura da mãe em desespero, a ousadia da cidadã determinada e a legitimidade da estilista apaixonada pelas coisas do Brasil, desafiando preconceitos e imposições em todos os campos de sua vida.

Zuzu vive e revive e revive, em cada novo bordado, nas rendas, chitas, estampas coloridas e vivas, as dela e as dos demais criadores da moda do Brasil, que hoje conquistam o mercado internacional.

Zuzu vive e revive nas páginas dos livros da História do Brasil, nesta linda canção dedicada a ela por Chico Buarque e Miltinho, no cinema, na literatura, no teatro, na memória da moda, na transmissão do conhecimento, em ações e homenagens várias.

De onde ela está, Zuzu nos contempla, neste seu 50° “14 de abril” de vida eterna, sorri e chora, como era de seu feitio. Como Chico Buarque definiu sua personalidade singular, “mulher ferida de morte e rindo”.