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4ª Semana Nacional de Jornalismo da ABI começa em São Paulo


14/04/2026


Abertura da 4ª Semana Nacional de Jornalismo da ABI na ECA-USP.

Por Geraldo Cantarino

“O jornalismo, como técnica de apuração, é o que há de mais eficaz para lançar luz sobre os fatos.” A afirmação é do jornalista Luis Nassif, um dos debatedores da mesa de abertura da 4ª Semana Nacional de Jornalismo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), realizada nesta segunda-feira (13), no auditório do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). A mesa foi mediada pelo professor Lalo Leal, conselheiro da ABI, e contou ainda com a participação de Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil, e do professor titular da ECA-USP, Dennis de Oliveira.

A edição deste ano tem como tema central “Notícias falsas, desinformação e manipulação”. Iniciativa da Comissão de Educação da ABI, o evento é realizado em parceria com universidades brasileiras e terá mais duas mesas nesta semana: em Fortaleza, na quinta-feira (16), às 16h, e na sede da ABI, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (17), às 17h, com transmissão pelo canal ABI TV no YouTube. Em solidariedade à luta pela educação pública, as mesas previstas para a Universidade de Brasília (UnB) e para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) foram canceladas em razão de paralisação e greve de servidores.

Debatedores

Luis Nassif, diretor do Jornal GGN.

Vencedor de prêmios como melhor jornalista de economia do país, Luis Nassif é diretor do Jornal GGN e conselheiro do Conselho Fiscal da ABI. Em sua apresentação, destacou o controle da narrativa ao longo da história da mídia. Segundo ele, esse controle sempre existiu — inicialmente nos jornais, como formadores de opinião, e depois com o surgimento do rádio e, sobretudo, da televisão, que se tornou o principal veículo de expressão política do século, pela capacidade de difundir narrativas em rede nacional.

“Hoje, o controle da narrativa está nas redes sociais, pela repetição, mas com base em um recurso que os jornais sempre utilizaram para manipular: a manchete. A manchete é muito mais relevante do que o texto”, afirmou. Para Nassif, o papel dos jornais hoje deveria ser o de contextualizar e aprofundar a notícia — algo que, segundo ele, não vem sendo feito. Nesse cenário, as grandes reportagens têm surgido na imprensa alternativa, e não nos grandes veículos. “Eu digo para vocês” — dirigindo-se a uma plateia formada em sua maioria por estudantes de Jornalismo da ECA-USP — “nunca foi tão fácil fazer jornalismo, porque as informações estão todas disponíveis. É saber procurar e saber contextualizar”. Na avaliação do jornalista, os jornais perderam protagonismo, enquanto influenciadores digitais, com ainda menos transparência, passaram a dominar as discussões.

Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Essa avaliação é corroborada por pesquisas recentes, que apontam as plataformas digitais como o principal meio de acesso à informação entre brasileiros, superando o rádio e a televisão. Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, Renata Mielli é assessora especial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ela apresentou dados da pesquisa inédita Painel TIC – Integridade da Informação, lançada na sexta-feira (10) pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), responsável por estabelecer diretrizes estratégicas para o uso e o desenvolvimento da Internet no país.

Conduzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), o levantamento — realizado com 5.250 usuários de Internet de 16 anos ou mais — mostra que 72% acessam diariamente informações por redes sociais, o que inclui vídeos curtos (53%), sites ou aplicativos de vídeo (50%) e feeds de notícias (46%). A pesquisa revela ainda que 60% se informam diariamente por aplicativos de mensagem, 58% por rádio e televisão (telejornais, canais de notícias 24 horas e rádios AM/FM) e 34% por jornais e revistas, em versões impressas ou digitais. Para Mielli, esse padrão — marcado pelo predomínio das redes e dos vídeos curtos — representa um “empobrecimento completo de qualquer possibilidade de debate racional, baseado em argumentos sobre os grandes problemas nacionais”.

A pesquisa também identificou a forte presença dos aplicativos de mensagem, característica marcante do Brasil. “Outros países não fazem uso de WhatsApp e Telegram como nós fazemos aqui. E isso é muito preocupante, porque os dados mostram a importância desses serviços para explicar fenômenos como o crescimento da extrema direita no país”, afirmou Mielli.

Outro dado relevante é que há maior desconfiança em relação a informações produzidas por veículos profissionais do que àquelas recebidas por influenciadores ou grupos de mensagem. Cerca de metade dos entrevistados desconfia “sempre” ou “na maioria das vezes” de conteúdos publicados por veículos tradicionais (48%), canais ou perfis em aplicativos de vídeo ou streaming (47%) e influenciadores ou figuras públicas em redes sociais (43%). “Isso mostra que o jornalismo tem um desafio imenso: como recuperar sua função social em uma sociedade fragmentada por essas plataformas digitais”, avaliou Mielli, destacando a urgência da regulação das grandes plataformas digitais e da inteligência artificial.

Dennis de Oliveira, professor titular da ECA-USP.

Em sua intervenção, Dennis de Oliveira também destacou os dilemas para a democracia, diante da formação de uma agenda de debates distante do interesse público em uma sociedade marcada pela inflação de informação. “O jornalista perdeu o monopólio da novidade”, afirmou o professor titular da ECA-USP.

“Qualquer pessoa conectada à Internet pode disseminar informação, não necessariamente de qualidade. Esse excesso gera ruído, já que nosso cérebro tem um limite de processamento. Além disso, a arquitetura das tecnologias digitais nos leva, nos convida, nos seduz à dispersão.” Nesse contexto, a atenção tornou-se um insumo fundamental — o que se convencionou chamar de economia da atenção ou capitalismo da atenção.

Para o professor, que também coordena o Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc/ECA-USP), é fundamental observar o funcionamento dessa indústria da informação e seus impactos sobre o jornalismo. Segundo ele, há uma rendição das mídias hegemônicas às lógicas impostas pela economia das plataformas digitais na sociabilidade contemporânea. “Nesse sentido, é importante recuperar o jornalismo em sua essência — como uma atividade de fomento à esfera pública”, afirmou.

Dennis de Oliveira defendeu ainda a necessidade de refletir sobre os fundamentos metodológicos, éticos e estéticos que configuram o jornalismo. “Fazer jornalismo é a melhor forma de enfrentar essa inflação da informação, que coloca em risco a democracia.” Para ele, isso passa, necessariamente, pela produção de jornalismo de qualidade.

A gravação da mesa de abertura da 4ª Semana Nacional de Jornalismo da ABI está disponível, na íntegra, no canal ABI TV no YouTube.

Calendário de atividades da Semana Nacional de Jornalismo da ABI

16 de abril – FORTALEZA
Universidade Federal do Ceará – UFC, das 16h às 18h
Auditório José Albano, Centro de Humanidades, UFC
Av. da Universidade, 2683, Benfica, Fortaleza-CE
Mediador:
SALOMÃO DE CASTRO, conselheiro da ABI
Debatedores:
RAPHAELLE BATISTA, jornalista e pesquisadora sobre credibilidade jornalística
THATIANY NASCIMENTO, jornalista e pesquisadora sobre democracia e transparência
RAFAEL MESQUITA, jornalista e presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará

17 de abril – RIO DE JANEIRO
Associação Brasileira de Imprensa – ABI, das 17h às 19h

Auditório Belisário de Souza, prédio-sede da ABI
Rua Araújo Porto Alegre, 71, 7º andar, Centro, Rio de Janeiro-RJ
Mediador:
VITOR IORIO, presidente do Conselho Deliberativo – ABI
Debatedores:
MARCO SCHNEIDER, professor do Departamento de Comunicação Social – UFF
FERNANDA DA ESCOSSIA, professora de Jornalismo – Uerj
GERALDO CANTARINO, jornalista freelancer e escritor
GUIBSOM ROMÃO, estudante de Jornalismo – Uerj